No dia 28/07/08 a CÂMARA SETORIAL DE MÚSICA se reuniu na Sala Hilda Campofiorito do Centro Cultural Paschoal Carlos Magno às 18h até 21:30.
PRESENÇAS:
- Ayres de Athaíde
- Carlos Gomes
- Igor Siqueira
- Laura Zandonadi
- Ludi Um
PAUTA:
-Regimento interno
Foi feita uma revisão do regimento pelos presentes,que será encaminhada para o Grupo de Trabalho.
-Ficou acertado reuniões quinzenais da Câmara e ser agendado a posteriori.
terça-feira, 29 de julho de 2008
quarta-feira, 23 de julho de 2008
ATENÇÃO!!!
1° REUNIÃO DO CONSELHO

A 1ª Reunião Ordinária do Conselho Municipal de Cultura aconteceu segunda(21/07/08) no Solar do Jambeiro, reunindo todos os Conselheiros (exceto o Guga Galo da câmara setorial de artes cênicas) e quase todos os Suplentes.
Pauta da 1ª Reunião Ordinária:
. Apresentação dos Conselheiros e suplentes;
. Fórum Cultural;
Foi reapresentada e confirmada a proposta de criação do Fórum Cultural de Niterói, visto como de suma importância para um bom andamento do Conselho. Este deverá se formar e realizar o seu primeiro encontro a partir de setembro, com local, data e horário a serem divulgados.
. Considerações e Informes;
. Presidência;
Foi decidido através de votação que o secretário de cultura Marcelo Veloso, que está presidindo o Conselho, se manterá no cargo temporariamente até os dois próximos encontros, que ocorrerão quinzenalmente. Ao final destes encontros, onde realizaremos discussões sobre este papel dentro de um CMC e aonde também os possíveis candidatos ao cargo irão se colocar, iremos eleger o novo presidente.
. Seleção do membro suplente representante do segmento artístico da Dança;
Este membro será selecionado quando a Câmara de Dança se fortalecer, já que conta apenas com uma integrante ativa, atual Conselheira. Independente desta situação será publicado em breve no DO todos os Conselheiros e suplentes do CMC de Nit, adicionando em outro momento o suplente deste setor.
. Regimento Interno;
Foi aprovada através de votação a criação de um Grupo de trabalho para análise e formação de um Regimento interno que será analisado, discutido e, finalmente, concluído após ser apresentado a todo o grupo e forem feitas as devidas alterações e complementações. Este grupo de trabalho foi formado voluntariamente por alguns conselheiros interessados neste processo.
. Página do CMC na internet;
A atualização desta página é ainda mantida por membros da Comissão eleitoral e foi proposto que um dos conselheiros assumisse esta responsabilidade. Esta discussão foi adiada para a próxima pauta, devido o pouco tempo para terminar a reunião e por não ser um assunto de grande relevância no momento.
.Diretrizes estabelecidas pela Conferência;
Foi discutida a importância de serem mantidas as diretrizes estabelecidas pela Conferência, onde teve início a idéia da formação deste CMC e também a sua seriedade para a cidade.
Calendário:
Próxima reunião extraordinária:
04/08 – 17h – Solar do Jambeiro
- Discussão do papel do presidente (17h-17h30)
- Discussão do regimento interno (17h30 – 19h)
- Site do Conselho
- Calendário de reuniões
Próxima Reunião Ordinária:
18/08 – 17h – Solar do Jambeiro
Lembrando que as reuniões são abertas a todos!
Pauta da 1ª Reunião Ordinária:
. Apresentação dos Conselheiros e suplentes;
. Fórum Cultural;
Foi reapresentada e confirmada a proposta de criação do Fórum Cultural de Niterói, visto como de suma importância para um bom andamento do Conselho. Este deverá se formar e realizar o seu primeiro encontro a partir de setembro, com local, data e horário a serem divulgados.
. Considerações e Informes;
. Presidência;
Foi decidido através de votação que o secretário de cultura Marcelo Veloso, que está presidindo o Conselho, se manterá no cargo temporariamente até os dois próximos encontros, que ocorrerão quinzenalmente. Ao final destes encontros, onde realizaremos discussões sobre este papel dentro de um CMC e aonde também os possíveis candidatos ao cargo irão se colocar, iremos eleger o novo presidente.
. Seleção do membro suplente representante do segmento artístico da Dança;
Este membro será selecionado quando a Câmara de Dança se fortalecer, já que conta apenas com uma integrante ativa, atual Conselheira. Independente desta situação será publicado em breve no DO todos os Conselheiros e suplentes do CMC de Nit, adicionando em outro momento o suplente deste setor.
. Regimento Interno;
Foi aprovada através de votação a criação de um Grupo de trabalho para análise e formação de um Regimento interno que será analisado, discutido e, finalmente, concluído após ser apresentado a todo o grupo e forem feitas as devidas alterações e complementações. Este grupo de trabalho foi formado voluntariamente por alguns conselheiros interessados neste processo.
. Página do CMC na internet;
A atualização desta página é ainda mantida por membros da Comissão eleitoral e foi proposto que um dos conselheiros assumisse esta responsabilidade. Esta discussão foi adiada para a próxima pauta, devido o pouco tempo para terminar a reunião e por não ser um assunto de grande relevância no momento.
.Diretrizes estabelecidas pela Conferência;
Foi discutida a importância de serem mantidas as diretrizes estabelecidas pela Conferência, onde teve início a idéia da formação deste CMC e também a sua seriedade para a cidade.
Calendário:
Próxima reunião extraordinária:
04/08 – 17h – Solar do Jambeiro
- Discussão do papel do presidente (17h-17h30)
- Discussão do regimento interno (17h30 – 19h)
- Site do Conselho
- Calendário de reuniões
Próxima Reunião Ordinária:
18/08 – 17h – Solar do Jambeiro
Lembrando que as reuniões são abertas a todos!
terça-feira, 22 de julho de 2008
ENCONTRO DO FUNK
Caros,O funk é hoje uma das maiores manifestações culturais de massa do nosso país e está diretamente relacionado aos estilos de vida e experiências da juventude de periferias e favelas. No entanto, apesar da indústria do funk movimentar grandes cifras e atingir milhões de pessoas, seus artistas e trabalhadores passam por uma série de dificuldades para reivindicarem seus direitos e sofrem processos de superexploração típicos do padrão de acumulação flexível neoliberal. Além disso, sob o comando monopolizado de poucos empresários, a indústria funkeira tem uma dinâmica que suprime a diversidade das composições, estabelecendo uma espécie de censura no que diz respeito aos temas das músicas. Assim, no lugar da crítica social, a mesmice da chamada “putaria”, letras que têm como temática quase exclusiva a pornografia.
No entanto, a despeito disso, MCs e Djs continuam a compor a poesia da favela. Uma produção ampla e diversificada que hoje, por não ter espaço na grande mídia e nem nos bailes, vê seu potencial como meio de comunicação popular muito reduzido.
Para transformar essa realidade, MCs e Djs vêm realizando encontros mensais. São espaços de socialização, de troca de informações, debates e organização. Neles também acontecem as rodas de funk que, a exemplo das rodas de samba, são momentos de cantar antigos sucessos e de mostrar novas composições. O objetivo é construir uma organização de luta pelos direitos desses artistas, bem como formas alternativas de produção cultural. Pretendemos ainda lançar um manifesto pela aprovação de uma lei federal definindo o funk como movimento cultural.
Para fortalecer essa luta, convidamos a todos para uma roda de funk, com churrasco e futebol, com a presença de vários MCs como Taffarel, Mano Teko, Junior e Leonardo, Doca, Beto do Batô, Dolores, Tianna entre outros. Os dados seguem abaixo:
Quando: 26/07/2008, a partir das 12h
Onde: Travessa Santa Rosa do Viterbo, 32 – salão de festas, Santa Rosa, Niterói.
Quanto: 10 reais
Qualquer dúvida, entrem em contato comigo que eu explico como chegar. É bem fácil e tem um monte de ônibus do Rio que param perto.
Esperamos tod@s vocês lá!
enviado por Adriana Facine
domingo, 20 de julho de 2008
ATENÇÃO!!!
AMANHÃ DIA 21/07/08 SERÁ REALIZADO A PRIMEIRA REUNIÃO DO CONSELHO MUNICIPAL DE CULTURA NO SOLAR DO JAMBEIRO!!!
terça-feira, 15 de julho de 2008
OS FIOS DA TEIA

OS FIOS DA TEIA
(MAIS OU MENOS MANIFESTO)
reprodução da obra de TT Catalão
eis um breve testemunho-testamento caótico, quase manifesto, nervoso e sujo pela poeira dos terreiros, em colagem de ouvidos, pára-choques de caminhantes, grafitagens, fragmentos de ruídos, recolhidos em diversos pontos de cultura de todas as regiões do brasil, frases desconexas em busca da argamassa rede, fios ainda em construção da grande teia, grávidos para devolver o caos sensível da nossa mucosa identidade nunca resolvida e eterna, do tanto que somos belicosamente em processo mutante, assim tudo foi escrito num só jorro, esquizo porém concreto, desse conflito em confronto estilhaçado da arte sem enfarte, fora do mercado, porém viva, no ano da graça de 2006 por este simples peregrino de acasos –
– queiram ou não entramos em trabalho de parto – os rebentos ainda não se pronunciaram em fetos novos – mídia só percebe o espetáculo quando ele vira produto, não alcança o processo – é difícil ver as tramas da rede – mas que las hay, hay – nós desatamos os nós – compartilhamos a tentativa nova: somos os verdadeiros autores das autoridades – existir é resistir – estamos em gestação progressiva – vamos do jeito que vamos porque viemos sempre assim: aos trancos, aos arrancos, entre o barroco, barracos e barrancos – a vida sempre revida – em colapso de exclusão responder, abusados: acontecer pela arte quando nos querem à parte – acontecer na presença quando nos querem invisíveis – acontecer teias de trocas – aí é que dizemos sim – esta é a nova ameaça: ao não aceitar a canga, escangalhar – dobrar os joelhos só se for para saltar mais alto – estamos íntegros e integrais – a plenitude é a soma das nossas imperfeições – bem diz um grafite de rua lá no recife: “expresso com o que tenho”, expresso com o que tenho – quando digo sim, eu posso, digo sei, eu faço, aí eu sou – viro o perigo na boca da meta, se encostar é pênalti, se avançamos é gol – viemos para misturar as fontes – direto na boca do gargalo – coca-cola também é família mas anda nas bocas de todo mundo – sem intermediários – a pet entope o esgoto – perigosos pela doçura da mestiçagem – engolir para melhor assimilar e arrebentar por dentro até que só reste traços e vestígios da pegada colonial – “se forem em política o que são em estética, estamos mortos”, ainda vibra aquele caetano de 68 – curto cicuta – o poeta desfolha a bandeira ainda trina gil e torquato – a geléia geral desidratada, pó em conserva – os jorros parecem interrompidos – saques ficaram mensalão – das sacadas não mais carolinas e bandas só passam se tiver megaconcerto – nunca tanto “ao vivo” nasceu morto – se o brasil acabasse assim vai ficar difícil selecionar os melhores momentos – porém o subterrâneo insiste – o que salva o oficial é o paralelo sem paralelo – as referências transmutam – a tradição só vale enquanto extradição, porém ao entrar na roda e gira – magnífico como o povo brasileiro decidiu não ser exterminado por tanta explicação – em constante movimento – já tivemos o pixinguinha jazz dos oito batutas – hoje, xote soa reggae – pulse trance trota feito o cavalo-marinho de mestre grimaldi, lá da zona da mata pernambucana – do repente ao rap, eis que de repente não mais que de repente tua cultura atua, ata, ataca, atraca, atua por ser tua – cada nódulo da teia se encadeia e desfia os elos da corrente eletrizante – acupun-cultura – aquele velho do-in antropofágico – nó sem ser o câncer do overdrive – talvez por isso língua não tenha osso – para gozar melhor entre as frestas – por isso estamos vivos – cidade feito cilada de armadas ilhas: armadilhas nas ruínas contemporâneas – vale mais a citação varonil do terno de sopros do maracatu aliança ao encaixar a trilha de popeye em pleno berço da pureza de terreiro – povo que tem talo não quer tutela nem travela – utopias abortadas fiquem para o porre cerebral – o erudito pelo não dito – chororô das tramas fracassadas: quem ama não drama – vamos ver se dessa vez a cultura escapa do eterno retorno: condenados sempre a partir do zero – qual é a novidade no balaio dos entendidos? –
– celebrar a diversidade, já fizemos – considerar a mestiçagem, já provocamos – proclamar a pluralidade, já shoppingcentramos – então o quekié o “muderno” nesse salve-se quem subir? – qualé o pagode da arte quando a cultura vira processo vivo e o artista deixa de ser bibelô da máquina para cair de boca na vida? – o popular continua mimético no imaginário da culpa da casa-grande que avilta a carne e depois quer o regalo da trepada barata pela estética – o povo ainda é fetiche para quem almoça e janta e não perde uma balada digestiva: o filho do patrão finge ser da tribo para evitar o choque – não foi de bobeira que os operários franceses, no mitológico rebuceteio do maio de 1968, alertaram aos estudantes excitados: “zona aqui na fábrica, não – aqui é nosso ganha-pão e vocês um dia voltam diplomados como novos opressores” – deu no que deu – a apropriação do popular alimenta a diluição ou mapeia nossos abismos para retomarmos o elo perdido desta pindorama estuprada por um pau-brasil de dimensões continentais? – o que muita gente detesta saber é que o povo está em movimento – aquela do Gil: “o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe” – no recife, em pleno seminário toques e trocas do afonso oliveira, surgiu essa: “antes era o bravo mcp (movimento de cultura popular) ligado nas ligas camponesas enquanto um cpc (centro popular de cultura), mais paulista e carioca, rolava entre o morro e o asfalto. Agora o papo é outro, vivemos tempos da própria cultura popular no comando da ação: tempo da cpm, a cultura popular em movimento – será que a elite, não satisfeita em tomar o corpo do povo, sua carne, a seiva de vida, agora quer a alma, a energia desse povo manifesta na arte? – luiz, respeita januário! – respeito é bom e dá gosto – dor não é deleite para elite – como bem disse o ferréz: “carentes são vocês que não param de querer e querem controlar e tomar tudo” – exercer o compartilhar para tirar a última laranja da pilha: o resto despenca – o que é ruim vai cair por si, mas cada um pode acelerar o processo – cada um com seu cada um não chegaremos a lugar nenhum, daí a urgência das redes – tua cultura é tua, tua cultura atua – fita do bonfim magnética em breve nessa nanocracia de pigmeus – melhor dribla quem desenquadra os quadris: eis o mistério do rock para os anglo-saxões, rebolar – precisavam remexer para alterar a rigidez das vértebras e deixar fluir esse kundalini – pélvis elvis não veio de graça – mas somos phd em deslocamentos da cintura há séculos – gloriosa bunda que beija e balança esse lábaro estrelado das terras emergentes – bota um cd-rom no batoque do raoni, o legítimo – descentraliza a lei rouanet, o legal – deus e o diabo na terra do soul, da sé e do senna – tem sempre um muro na frente de um brasileiro aguerrido – querem nos parar na marra – mas aprendemos a saltar pulando amarelinha nos quintais parabólicos –
– são paulo não pode parar por absoluta falta de estacionamento, então gira, gira, bate, combate e acaba dando creme nesse leite coalhado – a vaca não vai mais pro brejo porque há uma churrascaria no meio do caminho – mas o brejo pode virar a roça nova nem que seja country minado – ou campo – ou é tudo ao mesmo tempo agora, de novo – é preciso parar com essa de “resgatar a cultura popular” – quem precisa de resgate são os perdidos na fúria das novidades para consumo – o povo é o ovo do povo – criação permanente, em movimento, se não decifram são devorados – daí essa generosa avidez por carne nova no pedaço – o sertão já virou marketing – glauber ao encontrar guimarães rosa em 1965 projeta seu riverão “prometeu domesticou o abutre que bicava seus fígado para dar o fogo ao humano” – lina bo bardi saiu da linha para revelar o que tava na cara de todo mundo e ninguém via: “poesia é isca”, disse a bruxa do desenho brasileiro – via antes de enxergar – lina fundou o ardil da ele-gância bruta – sacou na medula – até hoje as acade-mias anêmicas ainda correm atrás do prejuízo – ranço da pança tóxica: fast-food intelectual na farsa da informação farta – poesia é isca: rime como quem comete crime – quem samba ginga quem não samba dá o fora – miami ou deixe-nos – ouvido no vidigal: “morto eu já tô só falta quem faça o serviço” – reacender a lampadarina de aloísio magalhães: fifó da general eletric quando o bulbo queimado da indústria reacende com pavio e querosene jacaré – lágrimas de mi cocodrilo verde – aloísio magalhães, morre em 1982, veneza, quando defendia na unesco olinda patrimônio – desenhava dinheiro e morreu sem – latinidades obsoletas – arriba pancho vila isabel que botou bolívar no sambódromo – che nunca viu passeata tão gostosa – o carnaval é a greve geral mais eufórica do mundo – os caminhos do centro nacional de referência cultural de aloísio foram dicas contra o novo jeito malandro do colonizador: escapar do tal multiculturalismo europeu – reconhece, até respeita, mas não admite a santa promiscuidade dos mestiços – mantenham distância – não entrem na sala nem venham vomitar o nosso carpete – viciados em ácaros os burocratas do poder têm horror ao suor – e o povo sua, e o povo soa, e o povo não é seu ou de quem quer que se suponha messias – deus é grátis, mas guru cobra ingresso – o tesão das realidades adora desmontar teses – omissão ainda é o pior míssil –– rodrigo de mello franco continua mais raiz que a mandioca do xinguano aritana – os yawalapíti contra a tribo dos “carapecus”: uma gente que não entra no rio e só lava a cara, o pé e o que falta para ser lavado – o xingu sabe que está cercado mas vai usar a teia para romper o cerco – na emergência da memória – também imaterial – ressignificar o que ficou para continuar sendo – pelo último grão que resta semear outra floresta – eles venceram, mas enquanto sobrar um dos derrotados eles terão que engolir ou cuspir – a inocência desestabiliza – nos organizar para desorganizar – a pureza é a soma de tudo e mais um pouco ainda – se lucio e oscar fizeram o primeiro poema concreto das contradições brasileiras – é possível ressignificar as muitas brasílias resistentes na brasília mais de casca – as aparências esganam – uma catedral cocar ou coroa de abacaxi – entre os vãos e vens da pampulha – os vaivéns dos pulhas – o trançado da teia entrelaça não para prender mas para fortalecer o um com mais um – enquanto duas torres gemem no congresso – enquanto a esplanada dos ministérios é uma placa mãe de slots à espera dos nossos inputs – brasília pode ser a utopia abortada, mas que feto! – quanto mais interior mais exterior: litoral recebia e girava no seu umbigo capital – agora o sertão processa e devolve por cima: as ondas estão no ar – navegar é o mesmo verbo pro ar e o mar – em brasília tem o mamulengo presepada com os mambembrincantes de rua: esquina é onde a gente funda – tatuagem de carne no asfalto – se a gente diz: a cidade é nossa, a gente toma – a primeira lei do guerrilheiro é não cair no despertar – e aí vai sem cair na tarde, e menos ainda na noite – até a outra manhã – e aí novo despertar, sem cair, vai e vai e vai – artimanhas de sobreviver sem os tubos – qualidade de vida vale mais – e não se trata de folclorizar a precariedade – mas superar a sucata – o digital vai além dos dedos e muito mais além dos dados – o dna do dono é o controle – quando mais e mais gente decide sair do cerco o circo pode pegar fogo – dono do corpo, faço meu sustento – dono do acesso, processo a informação – no meu direito ao desejo e realização do prazer faço os rumos do caminho – donos da festa – opinião – manifestar do nosso jeito – se tenho ferramentas crio e creio do modo que entendo – só troca quem tem – senão é doutrina – canais próprios – conexões solidárias – pulga que pluga – salta de ponto em ponto e interliga – o que é que você quer ser quando crescer? – o que é que você deixou de ser quando cresceu? – por que tanta gente não quer que você cresça? – a novidade agora, além da diversidade, da pluralidade, é que quem faz está na ponta da lança, recebe os equipamentos, processa a sua visão da coisa, emite não se omite, não apenas recebe e repete, atua, tua cultura atua – de mala e cuia entre e-mail e caos – cacos são pontos que unidos desenham linhas pra fazer mosaicos – sair da platéia e ativar – sair da fila do gargarejo e agitar – levanta e manda – essa é a diferença – o estado com política pública para entregar as armas aos cidadãos – uma convocação marselhesa de arte e prazer – agora é a co-inspiração já que as conspirações se esgotaram no corriqueiro – cordialidade das raízes do brasil, no sentido do córdio – mais coração que cordato –
– suely carvalho é ponta-de-lança em olinda – mãe matriz de todas as parteiras: cais do parto, seu ponto motriz – ela ensina os homens a parir – beth de oxum tem um coco para 20 vozes infantis – é a umbigadinha que ilumina os becos periféricos com o ardor da verdade libertária – não choram pelos cantos: cantam – gueto eu não te agüento – esse brasil faz e acontece enquanto tece a teia – lula gonzaga faz animação com xilo em igarassu pernambuco e diz: volpi contar – no vidigal subiu uma sala de edição entre o mar e a favela – visão da beleza e do caos, literalmente magnífica – assim mergulhamos nas contradições para sairmos do impasse – se mazzaropi dá hip-hop, matarazzo tira o atraso? – da lama ao caos só sairemos dessa se entrarmos mais fundo nessa – da science do chico ainda o suingue – a cabeça do outro, chico, o buarque, os panfletos elegantes – na favela da maré, de complexo mesmo só o da superioridade: a superação – não deixo eles me botarem pra baixo: se me pisarem vão escorregar – sou esguio por não ter guias – capa de revista – afroreggae e favela rising – entro nas brechas ocupo as frestas – aprendi com a água que acha saídas e quando se junta sabe ser fúria incontrolável – do moleton ao molotov – ceilândia, no df, põe hippies e ripas no hop – a cidade se dá a quem se doa – cidadania só é boa quando conquista – não são as asas que permitem o vôo, mas as atitudes – no baculejo do ganzá – um fole de bandoneon no sul, uma rancheira resfolega no centro-oeste, em cima, funga no cangote os oito baixos nordestinos – concertos sanfônicos – bumba meu boy – entre o mar de lama e o de lamê – o murro nas lamentações – se perderam o boeing da história peçam carona ao reisado guerreiro de mestre benon das alagoas, ele disse: “a terra é que move o movimento” – toadas onde mora o cálix bento e a hostess, ambos consagrados – darcy ribeirinho ainda corre – a casinha de villas bôas é preciosa e precisa, já, urgente, virar o memorial do xingu lá no posto leonardo do prefeito caboti – nos terreiros informatizados santo não baixa mais: tem download – ogum com seus ferros e berros recorre à justiça infinita de xangô pelos veios profundos de nanan aos batismos das águas de oxum, isto sem cair o sinal – e se os “bolinhos de jesus” vencerem o acarajé? – batmacumbayêyê, batman – mais falam em “coisa do demo”, mais demonstram a nova inquisição parabólica de hoje – tia ciata não pode mais acolher os novos batuques perseguidos – castradores em nome do senhor manipulativo – contas, cantos e cores na mira – conseguirão dessa vez caparem a guerrilha capoeira? – como mascarar o golpe até parecer bailado? – mãe biu da nação xambá, linha única tem memorial com o coco bongar fazendo a trilha sonora –
– onde você esconde o seu racismo? – isso incomoda, ruge – racismo range, racismo finge na pior das máscaras, as mais caras: “você não me incomoda porque você sabe qual é o seu lugar” – a mídia come o pastel de vento da opinião produzida – massas falidas – recortagens redundantes do guarani ao guaraná – não ponham corda no meu bloco, quanto mais no meu pescoço – tv eletrodoméstico – tambores digitais – surubas digitais – abaixo a igreja universal do reino do chip – viva o portal libertário – mouse sem mickey – farinha pouca nossa piração primeiro – a tropicália ainda vive em conceito embora tenha dançado como produto – e vocês, sabem com quem estão falindo? – a conspiração da mediocridade é forte, mas não vai nos desdentar – “deus, quando tirou meus dentes, reforçou a gengiva”, diz mestre quadrado no aruê-pã da ilha de itaparica – afffuuuuá é a respiração do boto na ilha de marajó – virou cidade: afuá – que não tem carro e trafega bike mais que amsterdã porém seus moinhos giram sob as palafitas: “menino sai de baixo da rua e entra”, gritam as mães em suas casas de madeira, cada uma com uma fachada – e há muitos brasis acontecendo sem que a mídia dê conta de contar – é giro demais para uma pomba gira só – mestre sabá vive lá no macapá e é zumbi em tempo integral no quilombo do curiaú – são os quadris revolutos que desestruturam qualquer esquadria da velha revolução – se a cidadania virou moda, tomara vire modelo e exploda a medula do sistema – responsabilidade social tem apelo, então socializemos os irresponsáveis –
– malandro que é malandro não cai: trepica e sarta de banda – malandro que abre o bico perde o gás – fala xangai: quequitutemcanário? – fala elomar, suassuna, o barro do manoel: pantanal é chão que mexe de tanto rio por baixo – e os rosas do rosa – ainda e sempre nossa língua afiada feito punhal de lampião – zapeia pra faltar audiência – blogueia pra inventar a teia – fanzina pra desmontar o best-seller do apocalypse – todo poder poda – assuma o mando, desmande o comando – a fim de querer, a fim de fazer – perder o foco geral é como ver futebol na tv: só mostram a jogada com bola e nunca a visão do jogo – daí nossa pátria de chuteiras tender ao estripamento das idéias – vamos por partes, fragmentamos como o frango assado da cultura caderno 2 dominical – sem o conjunto do geral o todo e tédio – tamanduá fuxica até achar, queria oswald contra a anta boquirrota e lerda dos tapuias – tabu e totem – totaliza tanta contradição num país só – tomar todas – com licença, posso vomitar no seu carpete? – a vida pulsa lá fora – no chã de camará, pernambuco, um caboclo está na ponta da lança para virar são jorge e o avesso – em terra de maracatu, maracutaia é troça – feio é morrer de toca, melhor tombar na tocaia – só o mané manera – chega de reconstrução – a onda é revirar a novidade – cilada de vacilão é sempre achar que já sabe tudo – quem tá pronto tá acabado – cagada de phd tem explicação brilhante – o meio ambiente começa no meio da gente – escapamos da cadeia alimentar das feras – caímos no código de barras – marmita de gravata é fast-food – spray: mato tua sede parede – grafita de fato – imprensa cultural virou roteiro de entretenimento comentado: onde tá o fato, nóis fatura – jornal pode até ser produto, mas notícia não pode virar mercadoria –
– em cima daquele morro tem um pé de jk, quando os hômi atiram forte só se ouve ark – eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente no lugar que escolhi – claudinho e buchecha resumiram o projeto do século – minha terra tem motosserra onde antes, sabiá – quem sabe sobra – um inglês assina protesto pela amazônia em fina mesa de mogno – quem cyber cyber, domina bem: informação é poder, deformação é domínio, manipulação é controle – luzinete, marinete, ivonete, rosenete, irmãs cajazeiras do sertão sem acesso à internet: a farsa da informação farta – sem contexto, consciência e sentido – cabocolinhos – aguilar é jedai, ou desce – suas espadas de luz para cortar a mediocridade que nos imprime – lampião caolho, camões semiótico – há servos demais – a cultura tem a ver com roça: você roça, roça, se enrosca, até que dessa fricção científica sai alguma coisa – bertazzo vive o teatro de revista em revista – consciência – “por que uns e não outros?”, foi a tese de doutorado na puc de jailson souza e o início do ceasm centro de estudos e ações solidárias das 16 comunidades da maré 1997 – difícil não é morar onde eu moro, a dificuldade é não permitir que eu acesse outras moradias e lugares – “patrulha tropa de choque traficante tiroteio e a cidade te pergunta: tá com medo, por que veio?”, diz bráulio tavares no folia guanabara, que significa “seio d'água tão grande quanto o mar” – na maré a praça do 18 é dos fortes – ainda bertazzo: “tenho sempre a impressão de que a construção de um espetáculo representa, em mínima escala, um possível sistema de organização: urbana, civil e democrática” – enquanto boal abóia, amir rima e o teatrão fica louco para virar alvo de pombo nas estátuas da glória – saravá sarah vaughan – consonâncias da mesma ressonância: como as inserções em circuitos ideológicos de cildo meirelles ao colar adesivos em garrafas de coca – as lutas de rua voltaram contra o aumento das passagens de ônibus, mas ninguém quer um novo foco – os sem-teto, cobrem – os sem-terra, cavam – os sem-vergonha, vergam – pior que a pm são as mps das medidas provisórias – e pra que banco 24 horas se o nosso salário só dura 24 minutos? – o sol nasceu pra todos, mas o bronzeado é só para quem ganha acima de 40 salários mínimos –
– zé limeira embala nise da silveira que embola arthur bispo e desvenda nossa lucidez domesticada – pânico do descontrole – veja lá se esse povo aí vai ultrapassar os limites? – é a pizza neoliberal do manjericão chupando manga – dandy ou dendê no maracatu de aliança: como a tradição está morta? é um mestre de nove anos, o gabriel, anjo do boi estrela: e tem uns que dizem pra tirar as crianças das ruas – as ruas é que devem ser devolvidas às crianças com beleza, segurança, festa e escola – temos é de tirar as crianças de dentro de casa: lan house desse doce lar com fritas e obesidade precoce – sob o risco de um país em lerdos rebanhos espumantes no ódio passivo dos que repetem “isso não é comigo, isso não é comigo” e “eles que se virem, eles que se danem” – diz o poeta turiba “ou a gente se raoni, ou a gente se sting” – em algum momento do dia quem está no volante vira pedestre e aí... –
– não aceitem o brasil por tabela – o brasil traduzido – o brasil vai pegar no tranco se a gente pegar na veia – há um brasil acontecendo à revelia – não tem nada nada nada que traduza essa enorme maravilha caótica em permanente processo de ebulição transmutação rebelião e desestabilização – não espere que alguém venha lhe mostrar o que é para ser visto – abra seus olhos por conta e risco – lugar quente é na cama ou então no bola preta, pois quem não chora: miami – se você acha que a realidade está no que ouve lê ou vê pela mídia, escape dessa necrofilia – a mídia ela se arrasta atrás do fato, depois de acontecido – com formol lhe dá formato editado filtrado para adotar cara de notícia – como lembrou caymmi para evitar trio elétrico, “eu não sou cachorro bobo pra correr atrás de caminhão” – direitos humanos, ótimo – também direitos mundanos – arte aliada da mudança – direitos mundanos aplicados na correria da hora: o poder do comum – pessoa sim, peça não – quem tem de ser especial é você e não o seu cheque – veja como tem medalhão babando pela perda da teta no balcão dos negócios consagrados – cala que as coisas falam – o outro pode ser eu pelo avesso – se eu converso, eu convexo – o outro sou eu quando verso – versão do que ainda não me tornei – aversão do que ainda poderei ser – se é pra ficar sentado, na espera, então pra que estar vivo? – se não tem, inventa – se está sem, tenta – entramos em trabalho de parto e a teia já avança sobre os silêncios que se recusam a perceber – tua cultura é tua – ataca, atraca, atua – acontecer – se a gente quiser, se a gente fizer – quem tá pronto tá acabado... –
(MAIS OU MENOS MANIFESTO)
reprodução da obra de TT Catalão
eis um breve testemunho-testamento caótico, quase manifesto, nervoso e sujo pela poeira dos terreiros, em colagem de ouvidos, pára-choques de caminhantes, grafitagens, fragmentos de ruídos, recolhidos em diversos pontos de cultura de todas as regiões do brasil, frases desconexas em busca da argamassa rede, fios ainda em construção da grande teia, grávidos para devolver o caos sensível da nossa mucosa identidade nunca resolvida e eterna, do tanto que somos belicosamente em processo mutante, assim tudo foi escrito num só jorro, esquizo porém concreto, desse conflito em confronto estilhaçado da arte sem enfarte, fora do mercado, porém viva, no ano da graça de 2006 por este simples peregrino de acasos –
– queiram ou não entramos em trabalho de parto – os rebentos ainda não se pronunciaram em fetos novos – mídia só percebe o espetáculo quando ele vira produto, não alcança o processo – é difícil ver as tramas da rede – mas que las hay, hay – nós desatamos os nós – compartilhamos a tentativa nova: somos os verdadeiros autores das autoridades – existir é resistir – estamos em gestação progressiva – vamos do jeito que vamos porque viemos sempre assim: aos trancos, aos arrancos, entre o barroco, barracos e barrancos – a vida sempre revida – em colapso de exclusão responder, abusados: acontecer pela arte quando nos querem à parte – acontecer na presença quando nos querem invisíveis – acontecer teias de trocas – aí é que dizemos sim – esta é a nova ameaça: ao não aceitar a canga, escangalhar – dobrar os joelhos só se for para saltar mais alto – estamos íntegros e integrais – a plenitude é a soma das nossas imperfeições – bem diz um grafite de rua lá no recife: “expresso com o que tenho”, expresso com o que tenho – quando digo sim, eu posso, digo sei, eu faço, aí eu sou – viro o perigo na boca da meta, se encostar é pênalti, se avançamos é gol – viemos para misturar as fontes – direto na boca do gargalo – coca-cola também é família mas anda nas bocas de todo mundo – sem intermediários – a pet entope o esgoto – perigosos pela doçura da mestiçagem – engolir para melhor assimilar e arrebentar por dentro até que só reste traços e vestígios da pegada colonial – “se forem em política o que são em estética, estamos mortos”, ainda vibra aquele caetano de 68 – curto cicuta – o poeta desfolha a bandeira ainda trina gil e torquato – a geléia geral desidratada, pó em conserva – os jorros parecem interrompidos – saques ficaram mensalão – das sacadas não mais carolinas e bandas só passam se tiver megaconcerto – nunca tanto “ao vivo” nasceu morto – se o brasil acabasse assim vai ficar difícil selecionar os melhores momentos – porém o subterrâneo insiste – o que salva o oficial é o paralelo sem paralelo – as referências transmutam – a tradição só vale enquanto extradição, porém ao entrar na roda e gira – magnífico como o povo brasileiro decidiu não ser exterminado por tanta explicação – em constante movimento – já tivemos o pixinguinha jazz dos oito batutas – hoje, xote soa reggae – pulse trance trota feito o cavalo-marinho de mestre grimaldi, lá da zona da mata pernambucana – do repente ao rap, eis que de repente não mais que de repente tua cultura atua, ata, ataca, atraca, atua por ser tua – cada nódulo da teia se encadeia e desfia os elos da corrente eletrizante – acupun-cultura – aquele velho do-in antropofágico – nó sem ser o câncer do overdrive – talvez por isso língua não tenha osso – para gozar melhor entre as frestas – por isso estamos vivos – cidade feito cilada de armadas ilhas: armadilhas nas ruínas contemporâneas – vale mais a citação varonil do terno de sopros do maracatu aliança ao encaixar a trilha de popeye em pleno berço da pureza de terreiro – povo que tem talo não quer tutela nem travela – utopias abortadas fiquem para o porre cerebral – o erudito pelo não dito – chororô das tramas fracassadas: quem ama não drama – vamos ver se dessa vez a cultura escapa do eterno retorno: condenados sempre a partir do zero – qual é a novidade no balaio dos entendidos? –
– celebrar a diversidade, já fizemos – considerar a mestiçagem, já provocamos – proclamar a pluralidade, já shoppingcentramos – então o quekié o “muderno” nesse salve-se quem subir? – qualé o pagode da arte quando a cultura vira processo vivo e o artista deixa de ser bibelô da máquina para cair de boca na vida? – o popular continua mimético no imaginário da culpa da casa-grande que avilta a carne e depois quer o regalo da trepada barata pela estética – o povo ainda é fetiche para quem almoça e janta e não perde uma balada digestiva: o filho do patrão finge ser da tribo para evitar o choque – não foi de bobeira que os operários franceses, no mitológico rebuceteio do maio de 1968, alertaram aos estudantes excitados: “zona aqui na fábrica, não – aqui é nosso ganha-pão e vocês um dia voltam diplomados como novos opressores” – deu no que deu – a apropriação do popular alimenta a diluição ou mapeia nossos abismos para retomarmos o elo perdido desta pindorama estuprada por um pau-brasil de dimensões continentais? – o que muita gente detesta saber é que o povo está em movimento – aquela do Gil: “o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe” – no recife, em pleno seminário toques e trocas do afonso oliveira, surgiu essa: “antes era o bravo mcp (movimento de cultura popular) ligado nas ligas camponesas enquanto um cpc (centro popular de cultura), mais paulista e carioca, rolava entre o morro e o asfalto. Agora o papo é outro, vivemos tempos da própria cultura popular no comando da ação: tempo da cpm, a cultura popular em movimento – será que a elite, não satisfeita em tomar o corpo do povo, sua carne, a seiva de vida, agora quer a alma, a energia desse povo manifesta na arte? – luiz, respeita januário! – respeito é bom e dá gosto – dor não é deleite para elite – como bem disse o ferréz: “carentes são vocês que não param de querer e querem controlar e tomar tudo” – exercer o compartilhar para tirar a última laranja da pilha: o resto despenca – o que é ruim vai cair por si, mas cada um pode acelerar o processo – cada um com seu cada um não chegaremos a lugar nenhum, daí a urgência das redes – tua cultura é tua, tua cultura atua – fita do bonfim magnética em breve nessa nanocracia de pigmeus – melhor dribla quem desenquadra os quadris: eis o mistério do rock para os anglo-saxões, rebolar – precisavam remexer para alterar a rigidez das vértebras e deixar fluir esse kundalini – pélvis elvis não veio de graça – mas somos phd em deslocamentos da cintura há séculos – gloriosa bunda que beija e balança esse lábaro estrelado das terras emergentes – bota um cd-rom no batoque do raoni, o legítimo – descentraliza a lei rouanet, o legal – deus e o diabo na terra do soul, da sé e do senna – tem sempre um muro na frente de um brasileiro aguerrido – querem nos parar na marra – mas aprendemos a saltar pulando amarelinha nos quintais parabólicos –
– são paulo não pode parar por absoluta falta de estacionamento, então gira, gira, bate, combate e acaba dando creme nesse leite coalhado – a vaca não vai mais pro brejo porque há uma churrascaria no meio do caminho – mas o brejo pode virar a roça nova nem que seja country minado – ou campo – ou é tudo ao mesmo tempo agora, de novo – é preciso parar com essa de “resgatar a cultura popular” – quem precisa de resgate são os perdidos na fúria das novidades para consumo – o povo é o ovo do povo – criação permanente, em movimento, se não decifram são devorados – daí essa generosa avidez por carne nova no pedaço – o sertão já virou marketing – glauber ao encontrar guimarães rosa em 1965 projeta seu riverão “prometeu domesticou o abutre que bicava seus fígado para dar o fogo ao humano” – lina bo bardi saiu da linha para revelar o que tava na cara de todo mundo e ninguém via: “poesia é isca”, disse a bruxa do desenho brasileiro – via antes de enxergar – lina fundou o ardil da ele-gância bruta – sacou na medula – até hoje as acade-mias anêmicas ainda correm atrás do prejuízo – ranço da pança tóxica: fast-food intelectual na farsa da informação farta – poesia é isca: rime como quem comete crime – quem samba ginga quem não samba dá o fora – miami ou deixe-nos – ouvido no vidigal: “morto eu já tô só falta quem faça o serviço” – reacender a lampadarina de aloísio magalhães: fifó da general eletric quando o bulbo queimado da indústria reacende com pavio e querosene jacaré – lágrimas de mi cocodrilo verde – aloísio magalhães, morre em 1982, veneza, quando defendia na unesco olinda patrimônio – desenhava dinheiro e morreu sem – latinidades obsoletas – arriba pancho vila isabel que botou bolívar no sambódromo – che nunca viu passeata tão gostosa – o carnaval é a greve geral mais eufórica do mundo – os caminhos do centro nacional de referência cultural de aloísio foram dicas contra o novo jeito malandro do colonizador: escapar do tal multiculturalismo europeu – reconhece, até respeita, mas não admite a santa promiscuidade dos mestiços – mantenham distância – não entrem na sala nem venham vomitar o nosso carpete – viciados em ácaros os burocratas do poder têm horror ao suor – e o povo sua, e o povo soa, e o povo não é seu ou de quem quer que se suponha messias – deus é grátis, mas guru cobra ingresso – o tesão das realidades adora desmontar teses – omissão ainda é o pior míssil –– rodrigo de mello franco continua mais raiz que a mandioca do xinguano aritana – os yawalapíti contra a tribo dos “carapecus”: uma gente que não entra no rio e só lava a cara, o pé e o que falta para ser lavado – o xingu sabe que está cercado mas vai usar a teia para romper o cerco – na emergência da memória – também imaterial – ressignificar o que ficou para continuar sendo – pelo último grão que resta semear outra floresta – eles venceram, mas enquanto sobrar um dos derrotados eles terão que engolir ou cuspir – a inocência desestabiliza – nos organizar para desorganizar – a pureza é a soma de tudo e mais um pouco ainda – se lucio e oscar fizeram o primeiro poema concreto das contradições brasileiras – é possível ressignificar as muitas brasílias resistentes na brasília mais de casca – as aparências esganam – uma catedral cocar ou coroa de abacaxi – entre os vãos e vens da pampulha – os vaivéns dos pulhas – o trançado da teia entrelaça não para prender mas para fortalecer o um com mais um – enquanto duas torres gemem no congresso – enquanto a esplanada dos ministérios é uma placa mãe de slots à espera dos nossos inputs – brasília pode ser a utopia abortada, mas que feto! – quanto mais interior mais exterior: litoral recebia e girava no seu umbigo capital – agora o sertão processa e devolve por cima: as ondas estão no ar – navegar é o mesmo verbo pro ar e o mar – em brasília tem o mamulengo presepada com os mambembrincantes de rua: esquina é onde a gente funda – tatuagem de carne no asfalto – se a gente diz: a cidade é nossa, a gente toma – a primeira lei do guerrilheiro é não cair no despertar – e aí vai sem cair na tarde, e menos ainda na noite – até a outra manhã – e aí novo despertar, sem cair, vai e vai e vai – artimanhas de sobreviver sem os tubos – qualidade de vida vale mais – e não se trata de folclorizar a precariedade – mas superar a sucata – o digital vai além dos dedos e muito mais além dos dados – o dna do dono é o controle – quando mais e mais gente decide sair do cerco o circo pode pegar fogo – dono do corpo, faço meu sustento – dono do acesso, processo a informação – no meu direito ao desejo e realização do prazer faço os rumos do caminho – donos da festa – opinião – manifestar do nosso jeito – se tenho ferramentas crio e creio do modo que entendo – só troca quem tem – senão é doutrina – canais próprios – conexões solidárias – pulga que pluga – salta de ponto em ponto e interliga – o que é que você quer ser quando crescer? – o que é que você deixou de ser quando cresceu? – por que tanta gente não quer que você cresça? – a novidade agora, além da diversidade, da pluralidade, é que quem faz está na ponta da lança, recebe os equipamentos, processa a sua visão da coisa, emite não se omite, não apenas recebe e repete, atua, tua cultura atua – de mala e cuia entre e-mail e caos – cacos são pontos que unidos desenham linhas pra fazer mosaicos – sair da platéia e ativar – sair da fila do gargarejo e agitar – levanta e manda – essa é a diferença – o estado com política pública para entregar as armas aos cidadãos – uma convocação marselhesa de arte e prazer – agora é a co-inspiração já que as conspirações se esgotaram no corriqueiro – cordialidade das raízes do brasil, no sentido do córdio – mais coração que cordato –
– suely carvalho é ponta-de-lança em olinda – mãe matriz de todas as parteiras: cais do parto, seu ponto motriz – ela ensina os homens a parir – beth de oxum tem um coco para 20 vozes infantis – é a umbigadinha que ilumina os becos periféricos com o ardor da verdade libertária – não choram pelos cantos: cantam – gueto eu não te agüento – esse brasil faz e acontece enquanto tece a teia – lula gonzaga faz animação com xilo em igarassu pernambuco e diz: volpi contar – no vidigal subiu uma sala de edição entre o mar e a favela – visão da beleza e do caos, literalmente magnífica – assim mergulhamos nas contradições para sairmos do impasse – se mazzaropi dá hip-hop, matarazzo tira o atraso? – da lama ao caos só sairemos dessa se entrarmos mais fundo nessa – da science do chico ainda o suingue – a cabeça do outro, chico, o buarque, os panfletos elegantes – na favela da maré, de complexo mesmo só o da superioridade: a superação – não deixo eles me botarem pra baixo: se me pisarem vão escorregar – sou esguio por não ter guias – capa de revista – afroreggae e favela rising – entro nas brechas ocupo as frestas – aprendi com a água que acha saídas e quando se junta sabe ser fúria incontrolável – do moleton ao molotov – ceilândia, no df, põe hippies e ripas no hop – a cidade se dá a quem se doa – cidadania só é boa quando conquista – não são as asas que permitem o vôo, mas as atitudes – no baculejo do ganzá – um fole de bandoneon no sul, uma rancheira resfolega no centro-oeste, em cima, funga no cangote os oito baixos nordestinos – concertos sanfônicos – bumba meu boy – entre o mar de lama e o de lamê – o murro nas lamentações – se perderam o boeing da história peçam carona ao reisado guerreiro de mestre benon das alagoas, ele disse: “a terra é que move o movimento” – toadas onde mora o cálix bento e a hostess, ambos consagrados – darcy ribeirinho ainda corre – a casinha de villas bôas é preciosa e precisa, já, urgente, virar o memorial do xingu lá no posto leonardo do prefeito caboti – nos terreiros informatizados santo não baixa mais: tem download – ogum com seus ferros e berros recorre à justiça infinita de xangô pelos veios profundos de nanan aos batismos das águas de oxum, isto sem cair o sinal – e se os “bolinhos de jesus” vencerem o acarajé? – batmacumbayêyê, batman – mais falam em “coisa do demo”, mais demonstram a nova inquisição parabólica de hoje – tia ciata não pode mais acolher os novos batuques perseguidos – castradores em nome do senhor manipulativo – contas, cantos e cores na mira – conseguirão dessa vez caparem a guerrilha capoeira? – como mascarar o golpe até parecer bailado? – mãe biu da nação xambá, linha única tem memorial com o coco bongar fazendo a trilha sonora –
– onde você esconde o seu racismo? – isso incomoda, ruge – racismo range, racismo finge na pior das máscaras, as mais caras: “você não me incomoda porque você sabe qual é o seu lugar” – a mídia come o pastel de vento da opinião produzida – massas falidas – recortagens redundantes do guarani ao guaraná – não ponham corda no meu bloco, quanto mais no meu pescoço – tv eletrodoméstico – tambores digitais – surubas digitais – abaixo a igreja universal do reino do chip – viva o portal libertário – mouse sem mickey – farinha pouca nossa piração primeiro – a tropicália ainda vive em conceito embora tenha dançado como produto – e vocês, sabem com quem estão falindo? – a conspiração da mediocridade é forte, mas não vai nos desdentar – “deus, quando tirou meus dentes, reforçou a gengiva”, diz mestre quadrado no aruê-pã da ilha de itaparica – afffuuuuá é a respiração do boto na ilha de marajó – virou cidade: afuá – que não tem carro e trafega bike mais que amsterdã porém seus moinhos giram sob as palafitas: “menino sai de baixo da rua e entra”, gritam as mães em suas casas de madeira, cada uma com uma fachada – e há muitos brasis acontecendo sem que a mídia dê conta de contar – é giro demais para uma pomba gira só – mestre sabá vive lá no macapá e é zumbi em tempo integral no quilombo do curiaú – são os quadris revolutos que desestruturam qualquer esquadria da velha revolução – se a cidadania virou moda, tomara vire modelo e exploda a medula do sistema – responsabilidade social tem apelo, então socializemos os irresponsáveis –
– malandro que é malandro não cai: trepica e sarta de banda – malandro que abre o bico perde o gás – fala xangai: quequitutemcanário? – fala elomar, suassuna, o barro do manoel: pantanal é chão que mexe de tanto rio por baixo – e os rosas do rosa – ainda e sempre nossa língua afiada feito punhal de lampião – zapeia pra faltar audiência – blogueia pra inventar a teia – fanzina pra desmontar o best-seller do apocalypse – todo poder poda – assuma o mando, desmande o comando – a fim de querer, a fim de fazer – perder o foco geral é como ver futebol na tv: só mostram a jogada com bola e nunca a visão do jogo – daí nossa pátria de chuteiras tender ao estripamento das idéias – vamos por partes, fragmentamos como o frango assado da cultura caderno 2 dominical – sem o conjunto do geral o todo e tédio – tamanduá fuxica até achar, queria oswald contra a anta boquirrota e lerda dos tapuias – tabu e totem – totaliza tanta contradição num país só – tomar todas – com licença, posso vomitar no seu carpete? – a vida pulsa lá fora – no chã de camará, pernambuco, um caboclo está na ponta da lança para virar são jorge e o avesso – em terra de maracatu, maracutaia é troça – feio é morrer de toca, melhor tombar na tocaia – só o mané manera – chega de reconstrução – a onda é revirar a novidade – cilada de vacilão é sempre achar que já sabe tudo – quem tá pronto tá acabado – cagada de phd tem explicação brilhante – o meio ambiente começa no meio da gente – escapamos da cadeia alimentar das feras – caímos no código de barras – marmita de gravata é fast-food – spray: mato tua sede parede – grafita de fato – imprensa cultural virou roteiro de entretenimento comentado: onde tá o fato, nóis fatura – jornal pode até ser produto, mas notícia não pode virar mercadoria –
– em cima daquele morro tem um pé de jk, quando os hômi atiram forte só se ouve ark – eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente no lugar que escolhi – claudinho e buchecha resumiram o projeto do século – minha terra tem motosserra onde antes, sabiá – quem sabe sobra – um inglês assina protesto pela amazônia em fina mesa de mogno – quem cyber cyber, domina bem: informação é poder, deformação é domínio, manipulação é controle – luzinete, marinete, ivonete, rosenete, irmãs cajazeiras do sertão sem acesso à internet: a farsa da informação farta – sem contexto, consciência e sentido – cabocolinhos – aguilar é jedai, ou desce – suas espadas de luz para cortar a mediocridade que nos imprime – lampião caolho, camões semiótico – há servos demais – a cultura tem a ver com roça: você roça, roça, se enrosca, até que dessa fricção científica sai alguma coisa – bertazzo vive o teatro de revista em revista – consciência – “por que uns e não outros?”, foi a tese de doutorado na puc de jailson souza e o início do ceasm centro de estudos e ações solidárias das 16 comunidades da maré 1997 – difícil não é morar onde eu moro, a dificuldade é não permitir que eu acesse outras moradias e lugares – “patrulha tropa de choque traficante tiroteio e a cidade te pergunta: tá com medo, por que veio?”, diz bráulio tavares no folia guanabara, que significa “seio d'água tão grande quanto o mar” – na maré a praça do 18 é dos fortes – ainda bertazzo: “tenho sempre a impressão de que a construção de um espetáculo representa, em mínima escala, um possível sistema de organização: urbana, civil e democrática” – enquanto boal abóia, amir rima e o teatrão fica louco para virar alvo de pombo nas estátuas da glória – saravá sarah vaughan – consonâncias da mesma ressonância: como as inserções em circuitos ideológicos de cildo meirelles ao colar adesivos em garrafas de coca – as lutas de rua voltaram contra o aumento das passagens de ônibus, mas ninguém quer um novo foco – os sem-teto, cobrem – os sem-terra, cavam – os sem-vergonha, vergam – pior que a pm são as mps das medidas provisórias – e pra que banco 24 horas se o nosso salário só dura 24 minutos? – o sol nasceu pra todos, mas o bronzeado é só para quem ganha acima de 40 salários mínimos –
– zé limeira embala nise da silveira que embola arthur bispo e desvenda nossa lucidez domesticada – pânico do descontrole – veja lá se esse povo aí vai ultrapassar os limites? – é a pizza neoliberal do manjericão chupando manga – dandy ou dendê no maracatu de aliança: como a tradição está morta? é um mestre de nove anos, o gabriel, anjo do boi estrela: e tem uns que dizem pra tirar as crianças das ruas – as ruas é que devem ser devolvidas às crianças com beleza, segurança, festa e escola – temos é de tirar as crianças de dentro de casa: lan house desse doce lar com fritas e obesidade precoce – sob o risco de um país em lerdos rebanhos espumantes no ódio passivo dos que repetem “isso não é comigo, isso não é comigo” e “eles que se virem, eles que se danem” – diz o poeta turiba “ou a gente se raoni, ou a gente se sting” – em algum momento do dia quem está no volante vira pedestre e aí... –
– não aceitem o brasil por tabela – o brasil traduzido – o brasil vai pegar no tranco se a gente pegar na veia – há um brasil acontecendo à revelia – não tem nada nada nada que traduza essa enorme maravilha caótica em permanente processo de ebulição transmutação rebelião e desestabilização – não espere que alguém venha lhe mostrar o que é para ser visto – abra seus olhos por conta e risco – lugar quente é na cama ou então no bola preta, pois quem não chora: miami – se você acha que a realidade está no que ouve lê ou vê pela mídia, escape dessa necrofilia – a mídia ela se arrasta atrás do fato, depois de acontecido – com formol lhe dá formato editado filtrado para adotar cara de notícia – como lembrou caymmi para evitar trio elétrico, “eu não sou cachorro bobo pra correr atrás de caminhão” – direitos humanos, ótimo – também direitos mundanos – arte aliada da mudança – direitos mundanos aplicados na correria da hora: o poder do comum – pessoa sim, peça não – quem tem de ser especial é você e não o seu cheque – veja como tem medalhão babando pela perda da teta no balcão dos negócios consagrados – cala que as coisas falam – o outro pode ser eu pelo avesso – se eu converso, eu convexo – o outro sou eu quando verso – versão do que ainda não me tornei – aversão do que ainda poderei ser – se é pra ficar sentado, na espera, então pra que estar vivo? – se não tem, inventa – se está sem, tenta – entramos em trabalho de parto e a teia já avança sobre os silêncios que se recusam a perceber – tua cultura é tua – ataca, atraca, atua – acontecer – se a gente quiser, se a gente fizer – quem tá pronto tá acabado... –
Este "quase manifesto" é um trecho extraído da obra-colagem em vídeo, power-point e animação "Cultura quem te atura?" de TT Catalão, consultor do PNUD, com mais de 1.500 imagens reunidas como um mosaico da cultura em movimento. São fotos do autor por diversos Pontos de Cultura, recortes de jornais brasileiros e europeus, reproduções de catálogos, cartazes, paredes e muros sob montagem de sons incidentais rurais, urbanos e alguns não muito bem definidos.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
O CALCANHAR-DE-AQUILES DA NOSSA CULTURA

Popular ou erudita, local ou global, massificada ou virtual, falta de sintonia dificulta a criação de políticas para o setor
CLARISSE FUKELMAN
PROFESSORA DE LITERATURA E PRODUTORA CULTURAL
“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”. O poema de Gertrud Stein é aqui lembrado a propósito da verdadeira babel em que a cultura se meteu hoje:conceito e realidade estão fora de sintonia, em meio a centenas de definições. Sempre se dirá que nada foge a conflitos — menos ainda à cultura.
Mas tem hora em que a diversidade de enfoques vira problema: quando é vencida pelo curto-circuito da comunicação ou pela distância entre teoria e prática. As duas coisas estão acontecendo.
Isso pode ser verificado quando se analisam atentamente os livros que têm sido publicados sobre o tema no Brasil. Depois de historiar o conceito, cada autor fixa seu parâmetro de cultura. Mais do que busca de rigor acadêmico, o recurso sugere necessidade de ajuste a novas realidades e perda de denominador comum entre áreas e correntes dedicadas ao assunto.
Na seara histórica, Maria Elisa Cevasco acompanha o berço da disciplina de estudos culturais na Inglaterra e seus desdobramentos desde os anos 50. O cerne de Dez lições sobre estudos culturais é a análise da “era da cultura”, marcada pelos meios de comunicação de massa muna sociedade hierarquizada, que exigiu da crítica novos vocabulário e método.
A autora começa distinguindo cultura (instância de construção de significados e veiculação de valores), de política (instância de deliberação). Mas nota que, para ser democrática e comportar mudanças sociais, a cultura deve levar em conta política e economia.
Cevasco contesta a linha conservadora que sedimentou visões elitistas e repudia a perspectiva desvinculada da prática, isolando a cultura do mundo material. Também não caberia à cultura (ou à educação humanístico-literária) a salvação da sociedade massiva ou o apaziguamento de conflitos sociais. Essa posição em geral é adotada por defensores da ação hierarquizada: uns poucos difundem a alta cultura para minorar os males da civilização moderna.
Assim, democratização do ‘alto saber”, cultura em comum (oposta à de minoria) e conforto material integram uma ética de responsabilidade: projetos artísticos e intelectuais são constituídos por processos sociais e também o constituem.
O tema também é abordado em Cultura e consumo, de Grant McCracken. O autor caracteriza propriedades simbólicas, usos e potencial de significação de produtos e serviços, com base na antropologia e no estudo do comportamento do consumidor. Assim, desloca o cognitivo e afetivo do plano do indivíduo (psicologia) para sistemas e contextos mais amplos. Estabelece como cultura “idéias e atividades com que fabricamos e construímos nosso mundo” e como consumo “processos por que bens e serviços são criados, comprados e usados”, integrando fenômenos sistemáticos e abrangentes que vão além do utilitário ou comercial.
O livro tem o mérito de valorizar um tema novo — a lógica cultural do consumo — e acerta na crítica aos que vêem o assunto como fútil, por preconceito. Mas seu calcanhar-de-aquiles está aí: o empenho em defender esse campo de estudo o faz minimizar variáveis ligadas ao sistema econômico.
Pode-se aceitar que consumo e indústria responderam pela transformação do Ocidente, com sérios efeitos sociais. Mas não dá para deixar os efeitos em segundo plano e conferir peso desigual ao estudo das relações de poder entre bens e processo produtivo — elas afetam, e muito, a rede simbólica.
Fixado na análise funcional, e com tal autonomia e positividade, o autor reforça o mercado como legitimador dos produtos culturais. Um exemplo é a teoria para processos de consumo: nele a cultura é um todo fechado; o sujeito não tem autonomia; os veículos determinantes do processo são a publicidade e a moda. Ficam de fora a própria constituição dos princípios culturais, um dos motores centrais dessa engrenagem, o jogo de forças pelo qual princípios deixam de ser imanente ou absolutos.
Lucia Santanella, em Cultura e artes do pós-humano (da cultura das mídias à cibercultura), volta-se para fenômenos up-to-date, também ligados ao mundo material (embora apontem para o imaterial): a era digital, malha, redes. Para ela, meios de comunicação moldam pensamento e sensibilidade, dando origem a novas eras culturais, períodos não-lineares que se transformam de forma cumulativa: uma nova formação comunicativa e cultural se integra à anterior, “provocando reajustamentos e refuncionalizações”.
A autora formula o conceito “cultura das mídias”, para dar conta das “profundas transformações na hegemonia da cultura de massas” e indústria cultural. Uma cultura intermediária, que envolve processos da produção ao consumo e mistura linguagens e meios: mensagens híbridas geradas por dispositivos (copiadora, vídeo etc.) possibilitam a cultura do transitório individualizado (versus massivo), comunicação planetária e computacional.
Sem dúvida, a ação e lógica de novas formas de consumo cultural ligadas a tecnologias do disponível precisam de observadores. Mas de novo a defesa do campo de investigação e a descrição de seus mecanismos levam um especialista a evitar impasses. Seria mais fácil a autora aceitar que afinal tudo é artifício; as tecnologias evidenciam a condição humana, sempre mediada — sua natureza é simbólica, técnica e artificial. Não há, pois, tanto a temer. Será?
Ao abstrair mediações entre fato e publicação nos meios de comunicação ou considerar que a produção diretamente ligada ao mercado independe de mecenas e incentivos, deixa em suspenso os meandros do mercado. E acusa a teoria da indústria cultural ter acentuado na América Latina “o pretenso fosso” entre cultura erudita e outras formas de produção de cultura.
Ainda no campo de avanços técnico-científicos, Rodrigo Duarte, professor de filosofia da UFMG, defende no livro Teoria critica da indústria cultural a pertinência de conceitos da escola de Frankfurt para analise da “indústria cultural global”. Ao sistematizar o pensamento de seus membros, com apuro nos dados históricos e políticos, reforça a ética de responsabilidade que propugna para intelectuais sem escudos de “neutralidade” e marca a admiração pelos que negam a “ conivência que a filosofia e a ciência têm demonstrado para como status quo”.
Por outro lado, a adesão quase incondicional a Adorno por vezes o aprisiona, por exemplo, ao focar a dicotomia arte/indústria ou a substituição da contemplação pelo “efeito de choque” no cinema. Mas o compromisso com a coerência teórica o calça para uma visão desapegada, no bom sentido. Sua macroanálise do sistema cultural no contexto da globalização inclui as relações entre mercado, sistema econômico e regime político.
A mercantilização cultural por grandes empresas exige transparência. Mas há aspectos positivos: relativização de fronteiras nacionais, drible à coerção de poder local constituído, mundialização de questões.
O conceito de “glocalização” (com c, de local) ajuda a definir peculiaridades de “culturas translocais”, assim chamadas porque não seriam desenraizadas ou submissas a padronizações mundiais, e sim “abertas para fora”. Desde que não haja manipulação ideológica das formas simbólicas. O que requer um longo percurso.
Um confronto de culturas
A nova leva de livros sobre cultura se abre ao confronto de visões (academia, mercado e Estado), à reavaliação de relações (cultura, educação e ensino) e ao questionamento de divisões tradicionais entre popular e erudita ou teoria e prática; além de apresentar novos objetos de estudo (internet, consumo, multiculturalismo e globalização).
Num trabalho com visada política, Edgar de Assis Carvalho defende, em Enigmas da cultura, a necessidade de modelos universais de interpretação sem, por isso, negar a diversidade cultural. Investiga com apuro Lévi-Strauss e Edgard Morin; mas a hostilidade a correntes relativistas da antropologia faz parecer que se compraz em atacar “caudatários da objetividade neutra, pseudo-isenta” da via etnográfica.
Ressalvado o tom, o autor sacode o atual consenso em torno do elogio à diferença (é especialmente duro com Clifford Geertz). Aderindo à visão de cultura do filósofo francês Michel Foucault, que agrega valores como imaginário e linhas de força, ele revê velhos clichês, como o que nega qualquer consideração sobre o simbólico na construção do pensamento marxista.
Em Globalização e diversidade cultural, Hassan Zaoual substitui o paradigma de luta de classes pelo da pedagogia social baseada no conflito entre sítios de pertencimento — sítio é um local geográfico e simbólico (que determina a adesão a urna cultura, ideologia ou religião). Segundo ele, a hegemonia da economia do Norte e de tudo que traz de reativo e violento (os fundamentalismos) seria destruída com fortalecimento de identidades locais e da comunhão entre os homens.
Também Edgar Assis Carvalho fala em unidade planetária pautada por colaboração solidária das culturas. Só que Zaoual parece trabalhar num plano “ideal” ou com exemplos que pedem uma sistematização da envergadura dos paradigmas que desmonta — ficam difusas as formas de intervenção contra o que crítica na globalização: a ocidentalização do mundo e o desrespeito à diversidade de culturas, civilizações ou religiões.
Cada visão sugere decisões distintas para ações culturais. O que se vê no discurso repete-se na prática. A produção cultural é palco de divergentes quereres: onde se propõe projeto, se oferece contrapartida; onde se sonham eventos, clientelismo; onde se propõe o lúdico, desigualdade, falta de “espírito esportivo”; onde se propõe o universal e humanitário, segmentação.
Claro que essa não é a regra. Graças ao contraditório sobressaem pontos em comum para um movimento novo unindo segmentos aparentemente incomunicáveis. Nisso o Estado é figura historicamente central. A aliança mais viva na memória é com a educação. Bm 1930, Getúlio Vargas criou o Ministério da Educação e Saúde Pública. Educar tinha a ver com curar. Do quê? - são outros tostões. Só em 1953 a Educação trocou a saúde pela cultura, que ganhou a alforria em 1985. Nesse histórico, mais que jogo de palavras, há políticas e distribuição de orçamento.
Hoje incentivos e diretrizes oficiais para a cultura estão no centro dos debates. Políticas públicas de cultura é das poucas publicações recentes no assunto, resultado de fórum na Uerj. Destaco dois textos. O de Vitor Hugo Adler discute o papel do Estado no amparo e controle à cultura e mecanismos do mercado. O confronto entre a tradição estatista francesa e a pragmática norte-americana deixou lições: evitar centralizar, sem se abster de planejamentos comprometidos com ideais, e acolher iniciativas privadas e criadores autônomos. Também merece destaque o texto de André Lázaro, que distingue o tempo do mercado e o da universidade e valoriza o intercâmbio entre culturas.
O tempo é bom fio condutor para instaurar o diálogo e elaborar projetos culturais impermeáveis a idiossincrasias teóricas. Os temas desta safra de livros podem ser pensados a partir dessa categoria. Tempo como consumo. Tempo abstraído em realidade virtual. Tempo projetado que não redunda em projeto porque não tem força interna para se concretizar ou que é disperso por forças a ele aleatórias. Tempo de execução do projeto do ponto de vista de quem o financia e de quem o executa.
Isso tudo tem impactos inestimáveis numa produção - e me credencio baseada em minha experiência tanto acadêmica quanto no mercado (como professora e pesquisadora para programas educativos e museológicos; além de produtora em projetos de TV, para empresas públicas e privadas). Não há consenso sobre o papel dos agentes culturais, nem sobre quem são: grupo heterogêneo (não sindicalizado) com atuação diversificada, misto de operário, artista, técnico, administrador e intelectual. O produtor cultural exerce uma profissão que se constrói junto aos órgãos e instituições para os quais presta serviço, com freqüentes ajustes práticos entre quem produz e quem patrocina. Mas, para quem vive do ofício — na hora de colocar na mesa um projeto, face ao empresário, órgão ou lei que o sanciona —, afluem vários impasses descritos nestes livros.
Entre eles o alerta de Cevasco sobre engajamento que celebra o “popular pelo popular” (via antiintelectualismo de tradição britânica) e o populismo cultural que, com simpatia, priva classes chamadas populares de herança cultural mais ampla. A s capacitação crítica do público face às novas tecnologias que Santaella anuncia. O critério de valor na direção de instâncias universais ou particulares e o embate entre o absoluto e a entronização do relativo, como se cada cultura tivesse uma essência só sua, unidade auto-suficiente.
O debate fica estimulado pela amplitude das questões. A de identidade, sobretudo em países como o Brasil do novo milênio, que quer incluir as dimensões política e social no cultural. A ideológica, que separa bárbaros e civilizados segundo os que têm ou não cultura (como cânone erudito). A do relativismo, que valoriza diferenças, mas se arrisca a reforçar guetos, substituindo no limite o coletivo pelo particular (identidade focada em etnia, sexo ou nação) e refutando princípios gerais, tidos como herdeiros de iluminismo caduco. A da globalização, como democratização do saber ou mecanismo perverso do capitalismo.
Se o que se espera hoje é coerência e responsabilidade, um bom começo é partir do conceito cultura. Bem empregar uma palavra é a boa largada para qualquer ato comunicativo, ação social ou política pertinentes. “Dar nome aos bois”, expressão de longo alcance, põe em jogo autoria, paridade de interlocutores, ajuste da realidade. Em miúdos: não traduzir democratização do saber em distribuição espetacular de equipamentos (computadores ou doação de livros para escolas), nem saudar a tecnologia como panacéia. Não apostar em projetos porque mostram a pobreza (mas ver se os projetos são pobres, ineficientes). Nem apreciá-los apenas porque estão de acordo com o cânone. É preciso mostrar abertura para fenômenos novos, ter uma leitura desarmada para a revolução da vida nas ruas, demonstrar generosidade de partilhar um biscoito fino e provar sabores estranhos ao paladar — fundar um capital cultural comum mas não homogêneo.
Se tanto cacique quer disputar a pesquisa sobre essa fatia de manifestação humana chamada cultura, que se dê força aos que promovem a “cultura inclusiva”, nem exclusiva nem excludente. Uma rosa é uma rosa? Certamente porque tem espinhos que fazem com que seja o que é, assim como várias possibilidades de cor e tamanho (C.F.).
In: Caderno Idéias &Livros, Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 05/06/2004, 1-2p.
enviado por Laura Zandonadi
O CONSELHO ESTÁ FORMADO!!!

O CONSELHO ELEITO
CONSELHEIROS ELEITOS EM 05 DE JULHO DE 2008.
> PRODUTORES CULTURAIS
TITULAR: Nadia Naira da Motta Medella
SUPLENTE: Walma Lúcia do Nascimento
> INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR
TITULAR: Luiz Augusto Fernandes Rodrigues
SUPLENTE: Adriana Facina G. do Amaral
> SERVIÇO DE RÁDIODIFUSÃO
TITULAR: Eliane Slama
SUPLENTE: Mauricio Pereira de Alcantara
> SETOR EMPRESARIAL
TITULAR: Vania Jussara da Cruz B. Vilarinho
SUPLENTE: Solanges Pimentel Schott
> MOVIMENTOS SOCIAIS
TITULAR: Conrado Lamas Arias
SUPLENTE: Fernando Paulino
> ARTES CÊNICAS
TITULAR: Carlos Augusto de Freitas
SUPLENTE: Neuza Maria Cericola
> ARTES PLÁSTICAS
TITULAR: Luiz Carlos de Carvalho e Silva
SUPLENTE: Marcia Maria Müller
> CINEMA E VÍDEO
TITULAR: Sérgio Santeiro
SUPLENTE: Mauro Lúcio dos Reis Corrêa
> DANÇA
TITULAR: Natalia Valdanini
SUPLENTE: não eleito
> Livro e Literatura
TITULAR: Mauro Romero Leal Passos
SUPLENTE: Graça Porto
> MÚSICA
TITULAR: Luiz Antonio Alves
SUPLENTE:Laura Basílio Zandonadi
Um bom mandao à todos!!!
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foto do 1° encontro em 03/06/08
O PRIMEIRO PASSO

O grande desafio deste 1° Conselho Municipal de Cultura é agregar em torno dele não só os artistas, mas sim todo o nosso município.Fazendo que ele, o conselho seja TRANSPARENTE, DEMOCRÁTICO e principalmente FORTE no desenvolvimento do seu objetivo - ter real e verdadeiramente uma política pública cultura; sem compadrios ou castas.
Não obstante de ser uma Câmara Setorial de Música e de funcionar como uma peça desta grande engrenagem, não devemos só e somente só exercer como uma câmara da classe e sim com o objetivo de ser o ELO entre os músicos de nossa cidade e a sociedade civil como um todo.Além disto e por isto, praticar sua maior função:que é trazer para o bojo das discussões, dos debates democráticos todos os anseios da nossa classe, realizando isto com CLAREZA, MENTE ABERTA, ASSERTIVIDADE, ALTRUÍSMO, HONESTIDADE, HUMILDADE E UNIDADE, e assim alcançarmos o ALVO MAIOR que é sim Cultura para todos, que é sim a arte como transformadora social...
Não podemos cair de forma laguma no pensamento esquálido que a CÂMARA esta aí para defender estilos, movimentos, tendências, nichos e/ou até mesmo projetos pessoais e indo mais adiante, de ousarmos pensar que ela, a CÂMARA SETORIAL DE MÚSICA, é unicelular e que não depende das outras CÂMARAS.Perdendo assim seu bem mais valioso que é de ser um pólo de desenvolvimento de CULTURA.
CULTURA É CULTURA!!!
por Luiz Antonio "Ludi Um" Alves
quarta-feira, 2 de julho de 2008
UM TOQUE!!!
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