segunda-feira, 7 de julho de 2008

O CALCANHAR-DE-AQUILES DA NOSSA CULTURA



Popular ou erudita, local ou global, massificada ou virtual, falta de sintonia dificulta a criação de políticas para o setor


CLARISSE FUKELMAN
PROFESSORA DE LITERATURA E PRODUTORA CULTURAL


“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”. O poema de Gertrud Stein é aqui lembrado a propósito da verdadeira babel em que a cultura se meteu hoje:conceito e realidade estão fora de sintonia, em meio a centenas de definições. Sempre se dirá que nada foge a conflitos — menos ainda à cultura.
Mas tem hora em que a diversidade de enfoques vira problema: quando é vencida pelo curto-circuito da comunicação ou pela distância entre teoria e prática. As duas coisas estão acontecendo.
Isso pode ser verificado quando se analisam atenta­mente os livros que têm sido publicados sobre o tema no Brasil. Depois de historiar o conceito, cada autor fixa seu parâmetro de cultura. Mais do que busca de rigor acadêmico, o recurso sugere necessidade de ajuste a novas realidades e perda de denominador comum entre áreas e correntes dedicadas ao assunto.
Na seara histórica, Maria Elisa Cevasco acompanha o berço da disciplina de estudos culturais na Inglaterra e seus desdobramentos desde os anos 50. O cerne de Dez lições sobre estudos culturais é a análise da “era da cultura”, marcada pelos meios de comunicação de massa muna sociedade hierarquizada, que exigiu da crítica novos vocabulário e método.
A autora começa distinguindo cultura (instância de construção de significados e veiculação de valores), de política (instância de deliberação). Mas nota que, para ser democrática e comportar mudanças sociais, a cultura deve levar em conta política e economia.
Cevasco contesta a linha conservadora que sedimentou visões elitistas e repudia a perspectiva desvinculada da prática, isolando a cultura do mundo material. Também não caberia à cultura (ou à educação humanístico-literária) a salvação da sociedade massiva ou o apaziguamento de conflitos sociais. Essa posição em geral é adotada por defensores da ação hierarquizada: uns poucos difundem a alta cultura para minorar os males da civilização moderna.
Assim, democratização do ‘alto saber”, cultura em comum (oposta à de minoria) e conforto material integram uma ética de responsabilidade: projetos artísticos e intelectuais são constituídos por processos sociais e também o constituem.
O tema também é abordado em Cultura e consumo, de Grant McCracken. O autor caracteriza propriedades simbólicas, usos e potencial de significação de produtos e serviços, com base na antropologia e no estudo do comportamento do consumi­dor. Assim, desloca o cognitivo e afetivo do plano do indivíduo (psicologia) para sistemas e contextos mais amplos. Estabelece como cultura “idéias e atividades com que fabricamos e construímos nosso mundo” e como consumo “processos por que bens e serviços são criados, comprados e usados”, integrando fenômenos sistemáticos e abrangentes que vão além do utilitário ou comercial.
O livro tem o mérito de valorizar um tema novo — a lógica cultural do consumo — e acerta na crítica aos que vêem o assunto como fútil, por preconceito. Mas seu calcanhar-de-aquiles está aí: o empenho em defender esse campo de estudo o faz minimizar variáveis ligadas ao sistema econômico.
Pode-se aceitar que consumo e indústria responderam pela transformação do Ocidente, com sérios efeitos sociais. Mas não dá para deixar os efeitos em segundo plano e conferir peso desigual ao estudo das relações de poder entre bens e processo produtivo — elas afetam, e muito, a rede simbólica.
Fixado na análise funcional, e com tal autonomia e positividade, o autor reforça o mercado como legitimador dos produtos culturais. Um exemplo é a teoria para processos de consumo: nele a cultura é um todo fechado; o sujeito não tem autonomia; os veículos determinantes do processo são a publicidade e a moda. Ficam de fora a própria constituição dos princípios culturais, um dos motores centrais dessa engrenagem, o jogo de forças pelo qual princípios deixam de ser imanente ou absolutos.
Lucia Santanella, em Cultura e artes do pós-humano (da cultura das mídias à cibercultura), volta-se para fenômenos up-to-date, também ligados ao mundo material (embora apontem para o imaterial): a era digital, malha, redes. Para ela, meios de comunicação moldam pensamento e sensibilidade, dando origem a novas eras culturais, períodos não-lineares que se transformam de forma cumulativa: uma nova formação comunicativa e cultural se integra à anterior, “provocando reajustamentos e refuncionalizações”.
A autora formula o conceito “cultura das mídias”, para dar conta das “profundas transformações na hegemonia da cultura de massas” e indústria cultural. Uma cultura intermediária, que envolve processos da produção ao consumo e mistura linguagens e meios: mensagens híbridas geradas por dispositivos (copiadora, vídeo etc.) possibilitam a cultura do transitório individualizado (versus massivo), comunicação planetária e computacional.
Sem dúvida, a ação e lógica de novas formas de consumo cultural ligadas a tecnologias do disponível precisam de observadores. Mas de novo a defesa do campo de investigação e a descrição de seus mecanismos levam um especialista a evitar impasses. Seria mais fácil a autora aceitar que afinal tudo é artifício; as tecnologias evidenciam a condição humana, sempre mediada — sua natureza é simbólica, técnica e artificial. Não há, pois, tanto a temer. Será?
Ao abstrair mediações entre fato e publicação nos meios de comunicação ou considerar que a produção diretamente ligada ao mercado independe de mecenas e incentivos, deixa em suspenso os meandros do mercado. E acusa a teoria da indústria cultural ter acentuado na América Latina “o pretenso fosso” entre cultura erudita e outras formas de produção de cultura.
Ainda no campo de avanços técnico-científicos, Rodrigo Duarte, professor de filosofia da UFMG, defende no livro Teoria critica da indústria cultural a pertinência de conceitos da escola de Frankfurt para analise da “indústria cultural global”. Ao sistematizar o pensamento de seus membros, com apuro nos dados históricos e políticos, reforça a ética de responsabilidade que propugna para intelectuais sem escudos de “neutralidade” e marca a admiração pelos que negam a “ conivência que a filosofia e a ciência têm demonstrado para como status quo”.
Por outro lado, a adesão quase incondicional a Adorno por vezes o aprisiona, por exemplo, ao focar a dicotomia arte/indústria ou a substituição da contemplação pelo “efeito de choque” no cinema. Mas o compromisso com a coerência teórica o calça para uma visão desapegada, no bom sentido. Sua macroanálise do sistema cultural no contexto da globalização inclui as relações entre mercado, sistema econômico e regime político.
A mercantilização cultural por grandes empresas exige transparência. Mas há aspectos positivos: relativização de fronteiras nacionais, drible à coerção de poder local constituído, mundialização de questões.
O conceito de “glocalização” (com c, de local) ajuda a definir peculiaridades de “culturas translocais”, assim chamadas porque não seriam desenraizadas ou submissas a padronizações mundiais, e sim “abertas para fora”. Desde que não haja manipulação ideológica das formas simbólicas. O que requer um longo percurso.
Um confronto de culturas
A nova leva de livros sobre cultura se abre ao confronto de visões (academia, mercado e Estado), à reavaliação de relações (cultura, educação e ensino) e ao questionamento de divisões tradicionais entre popular e erudita ou teoria e prática; além de apresentar novos objetos de estudo (internet, consumo, multiculturalismo e globalização).
Num trabalho com visada política, Edgar de Assis Carvalho defende, em Enigmas da cultura, a necessidade de modelos universais de interpretação sem, por isso, negar a diversidade cultural. Investiga com apuro Lévi-Strauss e Edgard Morin; mas a hostilidade a correntes relativistas da antropologia faz parecer que se compraz em atacar “caudatários da objetividade neutra, pseudo-isenta” da via etnográfica.
Ressalvado o tom, o autor sacode o atual consenso em torno do elogio à diferença (é especialmente duro com Clifford Geertz). Aderindo à visão de cultura do filósofo francês Michel Foucault, que agrega valores como imaginário e linhas de força, ele revê velhos clichês, como o que nega qualquer consideração sobre o simbólico na construção do pensamento marxista.
Em Globalização e diversidade cultural, Hassan Zaoual substitui o paradigma de luta de classes pelo da pedagogia social baseada no conflito entre sítios de pertencimento — sítio é um local geográfico e simbólico (que determina a adesão a urna cultura, ideologia ou religião). Segundo ele, a hegemonia da economia do Norte e de tudo que traz de reativo e violento (os fundamentalismos) seria destruída com fortalecimento de identidades locais e da comunhão entre os homens.
Também Edgar Assis Carvalho fala em unidade planetária pautada por colaboração solidária das culturas. Só que Zaoual parece trabalhar num plano “ideal” ou com exemplos que pedem uma sistematização da envergadura dos paradigmas que desmonta — ficam difusas as formas de intervenção contra o que crítica na globalização: a ocidentalização do mundo e o desrespeito à diversidade de culturas, civilizações ou religiões.
Cada visão sugere decisões distintas para ações culturais. O que se vê no discurso repete-se na prática. A produção cultural é palco de divergentes quereres: onde se propõe projeto, se oferece contrapartida; onde se sonham eventos, clientelismo; onde se propõe o lúdico, desigualdade, falta de “espírito esportivo”; onde se propõe o universal e humanitário, segmentação.
Claro que essa não é a regra. Graças ao contraditório sobressaem pontos em comum para um movimento novo unindo segmentos aparentemente incomunicáveis. Nisso o Estado é figura historicamente central. A aliança mais viva na memória é com a educação. Bm 1930, Getúlio Vargas criou o Ministério da Educação e Saúde Pública. Educar tinha a ver com curar. Do quê? - são outros tostões. Só em 1953 a Educação trocou a saúde pela cultura, que ganhou a alforria em 1985. Nesse histórico, mais que jogo de palavras, há políticas e distribuição de orçamento.
Hoje incentivos e diretrizes oficiais para a cultura estão no centro dos debates. Políticas públicas de cultura é das poucas publicações recentes no assunto, resultado de fórum na Uerj. Destaco dois textos. O de Vitor Hugo Adler discute o papel do Estado no amparo e controle à cultura e mecanismos do mercado. O confronto entre a tradição estatista francesa e a pragmática norte-americana deixou lições: evitar centralizar, sem se abster de planejamentos comprometidos com ideais, e acolher iniciativas privadas e criadores autônomos. Também merece destaque o texto de André Lázaro, que distingue o tempo do mercado e o da universidade e valoriza o intercâmbio entre culturas.
O tempo é bom fio condutor para instaurar o diálogo e elaborar projetos culturais impermeáveis a idiossincrasias teóricas. Os temas desta safra de livros podem ser pensados a partir dessa categoria. Tempo como consumo. Tempo abstraído em realidade virtual. Tempo projetado que não redunda em projeto porque não tem força interna para se concretizar ou que é disperso por forças a ele aleatórias. Tempo de execução do projeto do ponto de vista de quem o financia e de quem o executa.
Isso tudo tem impactos inestimáveis numa produção - e me credencio baseada em minha experiência tanto acadêmica quanto no mercado (como professora e pesquisadora para programas educativos e museológicos; além de produtora em projetos de TV, para empresas públicas e privadas). Não há consenso sobre o papel dos agentes culturais, nem sobre quem são: grupo heterogêneo (não sindicalizado) com atuação diversificada, misto de operário, artista, técnico, administrador e intelectual. O produtor cultural exerce uma profissão que se constrói junto aos órgãos e instituições para os quais presta serviço, com freqüentes ajustes práticos entre quem produz e quem patrocina. Mas, para quem vive do ofício — na hora de colocar na mesa um projeto, face ao empresário, órgão ou lei que o sanciona —, afluem vários impasses descritos nestes livros.
Entre eles o alerta de Cevasco sobre engajamento que celebra o “popular pelo popular” (via antiintelectualismo de tradição britânica) e o populismo cultural que, com simpatia, priva classes chamadas populares de herança cultural mais ampla. A s capacitação crítica do público face às novas tecnologias que Santaella anuncia. O critério de valor na direção de instâncias universais ou particulares e o embate entre o absoluto e a entronização do relativo, como se cada cultura tivesse uma essência só sua, unidade auto-suficiente.
O debate fica estimulado pela amplitude das questões. A de identidade, sobretudo em países como o Brasil do novo milênio, que quer incluir as dimensões política e social no cultural. A ideológica, que separa bárbaros e civilizados segundo os que têm ou não cultura (como cânone erudito). A do relativismo, que valoriza diferenças, mas se arrisca a reforçar guetos, substituindo no limite o coletivo pelo particular (identidade focada em etnia, sexo ou nação) e refutando princípios gerais, tidos como herdeiros de iluminismo caduco. A da globalização, como democratização do saber ou mecanismo perverso do capitalismo.
Se o que se espera hoje é coerência e responsabilidade, um bom começo é partir do conceito cultura. Bem empregar uma palavra é a boa largada para qualquer ato comunicativo, ação social ou política pertinentes. “Dar nome aos bois”, expressão de longo alcance, põe em jogo autoria, paridade de interlocutores, ajuste da realidade. Em miúdos: não traduzir democratização do saber em distribuição espetacular de equipamentos (computadores ou doação de livros para escolas), nem saudar a tecnologia como panacéia. Não apostar em projetos porque mostram a pobreza (mas ver se os projetos são pobres, ineficientes). Nem apreciá-los apenas porque estão de acordo com o cânone. É preciso mostrar abertura para fenômenos novos, ter uma leitura desarmada para a revolução da vida nas ruas, demonstrar generosidade de partilhar um biscoito fino e provar sabores estranhos ao paladar — fundar um capital cultural comum mas não homogêneo.
Se tanto cacique quer disputar a pesquisa sobre essa fatia de manifestação humana chamada cultura, que se dê força aos que promovem a “cultura inclusiva”, nem exclusiva nem excludente. Uma rosa é uma rosa? Certamente porque tem espinhos que fazem com que seja o que é, assim como várias possibilidades de cor e tamanho (C.F.).


In: Caderno Idéias &Livros, Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 05/06/2004, 1-2p.
enviado por Laura Zandonadi

Um comentário:

Anônimo disse...

É isso aí meu caro Ludi!!! Vamos nos unir nessa força e beneficiar os artístas de nossa terra!!! Beijos!!! ;)