
OS FIOS DA TEIA
(MAIS OU MENOS MANIFESTO)
reprodução da obra de TT Catalão
eis um breve testemunho-testamento caótico, quase manifesto, nervoso e sujo pela poeira dos terreiros, em colagem de ouvidos, pára-choques de caminhantes, grafitagens, fragmentos de ruídos, recolhidos em diversos pontos de cultura de todas as regiões do brasil, frases desconexas em busca da argamassa rede, fios ainda em construção da grande teia, grávidos para devolver o caos sensível da nossa mucosa identidade nunca resolvida e eterna, do tanto que somos belicosamente em processo mutante, assim tudo foi escrito num só jorro, esquizo porém concreto, desse conflito em confronto estilhaçado da arte sem enfarte, fora do mercado, porém viva, no ano da graça de 2006 por este simples peregrino de acasos –
– queiram ou não entramos em trabalho de parto – os rebentos ainda não se pronunciaram em fetos novos – mídia só percebe o espetáculo quando ele vira produto, não alcança o processo – é difícil ver as tramas da rede – mas que las hay, hay – nós desatamos os nós – compartilhamos a tentativa nova: somos os verdadeiros autores das autoridades – existir é resistir – estamos em gestação progressiva – vamos do jeito que vamos porque viemos sempre assim: aos trancos, aos arrancos, entre o barroco, barracos e barrancos – a vida sempre revida – em colapso de exclusão responder, abusados: acontecer pela arte quando nos querem à parte – acontecer na presença quando nos querem invisíveis – acontecer teias de trocas – aí é que dizemos sim – esta é a nova ameaça: ao não aceitar a canga, escangalhar – dobrar os joelhos só se for para saltar mais alto – estamos íntegros e integrais – a plenitude é a soma das nossas imperfeições – bem diz um grafite de rua lá no recife: “expresso com o que tenho”, expresso com o que tenho – quando digo sim, eu posso, digo sei, eu faço, aí eu sou – viro o perigo na boca da meta, se encostar é pênalti, se avançamos é gol – viemos para misturar as fontes – direto na boca do gargalo – coca-cola também é família mas anda nas bocas de todo mundo – sem intermediários – a pet entope o esgoto – perigosos pela doçura da mestiçagem – engolir para melhor assimilar e arrebentar por dentro até que só reste traços e vestígios da pegada colonial – “se forem em política o que são em estética, estamos mortos”, ainda vibra aquele caetano de 68 – curto cicuta – o poeta desfolha a bandeira ainda trina gil e torquato – a geléia geral desidratada, pó em conserva – os jorros parecem interrompidos – saques ficaram mensalão – das sacadas não mais carolinas e bandas só passam se tiver megaconcerto – nunca tanto “ao vivo” nasceu morto – se o brasil acabasse assim vai ficar difícil selecionar os melhores momentos – porém o subterrâneo insiste – o que salva o oficial é o paralelo sem paralelo – as referências transmutam – a tradição só vale enquanto extradição, porém ao entrar na roda e gira – magnífico como o povo brasileiro decidiu não ser exterminado por tanta explicação – em constante movimento – já tivemos o pixinguinha jazz dos oito batutas – hoje, xote soa reggae – pulse trance trota feito o cavalo-marinho de mestre grimaldi, lá da zona da mata pernambucana – do repente ao rap, eis que de repente não mais que de repente tua cultura atua, ata, ataca, atraca, atua por ser tua – cada nódulo da teia se encadeia e desfia os elos da corrente eletrizante – acupun-cultura – aquele velho do-in antropofágico – nó sem ser o câncer do overdrive – talvez por isso língua não tenha osso – para gozar melhor entre as frestas – por isso estamos vivos – cidade feito cilada de armadas ilhas: armadilhas nas ruínas contemporâneas – vale mais a citação varonil do terno de sopros do maracatu aliança ao encaixar a trilha de popeye em pleno berço da pureza de terreiro – povo que tem talo não quer tutela nem travela – utopias abortadas fiquem para o porre cerebral – o erudito pelo não dito – chororô das tramas fracassadas: quem ama não drama – vamos ver se dessa vez a cultura escapa do eterno retorno: condenados sempre a partir do zero – qual é a novidade no balaio dos entendidos? –
– celebrar a diversidade, já fizemos – considerar a mestiçagem, já provocamos – proclamar a pluralidade, já shoppingcentramos – então o quekié o “muderno” nesse salve-se quem subir? – qualé o pagode da arte quando a cultura vira processo vivo e o artista deixa de ser bibelô da máquina para cair de boca na vida? – o popular continua mimético no imaginário da culpa da casa-grande que avilta a carne e depois quer o regalo da trepada barata pela estética – o povo ainda é fetiche para quem almoça e janta e não perde uma balada digestiva: o filho do patrão finge ser da tribo para evitar o choque – não foi de bobeira que os operários franceses, no mitológico rebuceteio do maio de 1968, alertaram aos estudantes excitados: “zona aqui na fábrica, não – aqui é nosso ganha-pão e vocês um dia voltam diplomados como novos opressores” – deu no que deu – a apropriação do popular alimenta a diluição ou mapeia nossos abismos para retomarmos o elo perdido desta pindorama estuprada por um pau-brasil de dimensões continentais? – o que muita gente detesta saber é que o povo está em movimento – aquela do Gil: “o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe” – no recife, em pleno seminário toques e trocas do afonso oliveira, surgiu essa: “antes era o bravo mcp (movimento de cultura popular) ligado nas ligas camponesas enquanto um cpc (centro popular de cultura), mais paulista e carioca, rolava entre o morro e o asfalto. Agora o papo é outro, vivemos tempos da própria cultura popular no comando da ação: tempo da cpm, a cultura popular em movimento – será que a elite, não satisfeita em tomar o corpo do povo, sua carne, a seiva de vida, agora quer a alma, a energia desse povo manifesta na arte? – luiz, respeita januário! – respeito é bom e dá gosto – dor não é deleite para elite – como bem disse o ferréz: “carentes são vocês que não param de querer e querem controlar e tomar tudo” – exercer o compartilhar para tirar a última laranja da pilha: o resto despenca – o que é ruim vai cair por si, mas cada um pode acelerar o processo – cada um com seu cada um não chegaremos a lugar nenhum, daí a urgência das redes – tua cultura é tua, tua cultura atua – fita do bonfim magnética em breve nessa nanocracia de pigmeus – melhor dribla quem desenquadra os quadris: eis o mistério do rock para os anglo-saxões, rebolar – precisavam remexer para alterar a rigidez das vértebras e deixar fluir esse kundalini – pélvis elvis não veio de graça – mas somos phd em deslocamentos da cintura há séculos – gloriosa bunda que beija e balança esse lábaro estrelado das terras emergentes – bota um cd-rom no batoque do raoni, o legítimo – descentraliza a lei rouanet, o legal – deus e o diabo na terra do soul, da sé e do senna – tem sempre um muro na frente de um brasileiro aguerrido – querem nos parar na marra – mas aprendemos a saltar pulando amarelinha nos quintais parabólicos –
– são paulo não pode parar por absoluta falta de estacionamento, então gira, gira, bate, combate e acaba dando creme nesse leite coalhado – a vaca não vai mais pro brejo porque há uma churrascaria no meio do caminho – mas o brejo pode virar a roça nova nem que seja country minado – ou campo – ou é tudo ao mesmo tempo agora, de novo – é preciso parar com essa de “resgatar a cultura popular” – quem precisa de resgate são os perdidos na fúria das novidades para consumo – o povo é o ovo do povo – criação permanente, em movimento, se não decifram são devorados – daí essa generosa avidez por carne nova no pedaço – o sertão já virou marketing – glauber ao encontrar guimarães rosa em 1965 projeta seu riverão “prometeu domesticou o abutre que bicava seus fígado para dar o fogo ao humano” – lina bo bardi saiu da linha para revelar o que tava na cara de todo mundo e ninguém via: “poesia é isca”, disse a bruxa do desenho brasileiro – via antes de enxergar – lina fundou o ardil da ele-gância bruta – sacou na medula – até hoje as acade-mias anêmicas ainda correm atrás do prejuízo – ranço da pança tóxica: fast-food intelectual na farsa da informação farta – poesia é isca: rime como quem comete crime – quem samba ginga quem não samba dá o fora – miami ou deixe-nos – ouvido no vidigal: “morto eu já tô só falta quem faça o serviço” – reacender a lampadarina de aloísio magalhães: fifó da general eletric quando o bulbo queimado da indústria reacende com pavio e querosene jacaré – lágrimas de mi cocodrilo verde – aloísio magalhães, morre em 1982, veneza, quando defendia na unesco olinda patrimônio – desenhava dinheiro e morreu sem – latinidades obsoletas – arriba pancho vila isabel que botou bolívar no sambódromo – che nunca viu passeata tão gostosa – o carnaval é a greve geral mais eufórica do mundo – os caminhos do centro nacional de referência cultural de aloísio foram dicas contra o novo jeito malandro do colonizador: escapar do tal multiculturalismo europeu – reconhece, até respeita, mas não admite a santa promiscuidade dos mestiços – mantenham distância – não entrem na sala nem venham vomitar o nosso carpete – viciados em ácaros os burocratas do poder têm horror ao suor – e o povo sua, e o povo soa, e o povo não é seu ou de quem quer que se suponha messias – deus é grátis, mas guru cobra ingresso – o tesão das realidades adora desmontar teses – omissão ainda é o pior míssil –– rodrigo de mello franco continua mais raiz que a mandioca do xinguano aritana – os yawalapíti contra a tribo dos “carapecus”: uma gente que não entra no rio e só lava a cara, o pé e o que falta para ser lavado – o xingu sabe que está cercado mas vai usar a teia para romper o cerco – na emergência da memória – também imaterial – ressignificar o que ficou para continuar sendo – pelo último grão que resta semear outra floresta – eles venceram, mas enquanto sobrar um dos derrotados eles terão que engolir ou cuspir – a inocência desestabiliza – nos organizar para desorganizar – a pureza é a soma de tudo e mais um pouco ainda – se lucio e oscar fizeram o primeiro poema concreto das contradições brasileiras – é possível ressignificar as muitas brasílias resistentes na brasília mais de casca – as aparências esganam – uma catedral cocar ou coroa de abacaxi – entre os vãos e vens da pampulha – os vaivéns dos pulhas – o trançado da teia entrelaça não para prender mas para fortalecer o um com mais um – enquanto duas torres gemem no congresso – enquanto a esplanada dos ministérios é uma placa mãe de slots à espera dos nossos inputs – brasília pode ser a utopia abortada, mas que feto! – quanto mais interior mais exterior: litoral recebia e girava no seu umbigo capital – agora o sertão processa e devolve por cima: as ondas estão no ar – navegar é o mesmo verbo pro ar e o mar – em brasília tem o mamulengo presepada com os mambembrincantes de rua: esquina é onde a gente funda – tatuagem de carne no asfalto – se a gente diz: a cidade é nossa, a gente toma – a primeira lei do guerrilheiro é não cair no despertar – e aí vai sem cair na tarde, e menos ainda na noite – até a outra manhã – e aí novo despertar, sem cair, vai e vai e vai – artimanhas de sobreviver sem os tubos – qualidade de vida vale mais – e não se trata de folclorizar a precariedade – mas superar a sucata – o digital vai além dos dedos e muito mais além dos dados – o dna do dono é o controle – quando mais e mais gente decide sair do cerco o circo pode pegar fogo – dono do corpo, faço meu sustento – dono do acesso, processo a informação – no meu direito ao desejo e realização do prazer faço os rumos do caminho – donos da festa – opinião – manifestar do nosso jeito – se tenho ferramentas crio e creio do modo que entendo – só troca quem tem – senão é doutrina – canais próprios – conexões solidárias – pulga que pluga – salta de ponto em ponto e interliga – o que é que você quer ser quando crescer? – o que é que você deixou de ser quando cresceu? – por que tanta gente não quer que você cresça? – a novidade agora, além da diversidade, da pluralidade, é que quem faz está na ponta da lança, recebe os equipamentos, processa a sua visão da coisa, emite não se omite, não apenas recebe e repete, atua, tua cultura atua – de mala e cuia entre e-mail e caos – cacos são pontos que unidos desenham linhas pra fazer mosaicos – sair da platéia e ativar – sair da fila do gargarejo e agitar – levanta e manda – essa é a diferença – o estado com política pública para entregar as armas aos cidadãos – uma convocação marselhesa de arte e prazer – agora é a co-inspiração já que as conspirações se esgotaram no corriqueiro – cordialidade das raízes do brasil, no sentido do córdio – mais coração que cordato –
– suely carvalho é ponta-de-lança em olinda – mãe matriz de todas as parteiras: cais do parto, seu ponto motriz – ela ensina os homens a parir – beth de oxum tem um coco para 20 vozes infantis – é a umbigadinha que ilumina os becos periféricos com o ardor da verdade libertária – não choram pelos cantos: cantam – gueto eu não te agüento – esse brasil faz e acontece enquanto tece a teia – lula gonzaga faz animação com xilo em igarassu pernambuco e diz: volpi contar – no vidigal subiu uma sala de edição entre o mar e a favela – visão da beleza e do caos, literalmente magnífica – assim mergulhamos nas contradições para sairmos do impasse – se mazzaropi dá hip-hop, matarazzo tira o atraso? – da lama ao caos só sairemos dessa se entrarmos mais fundo nessa – da science do chico ainda o suingue – a cabeça do outro, chico, o buarque, os panfletos elegantes – na favela da maré, de complexo mesmo só o da superioridade: a superação – não deixo eles me botarem pra baixo: se me pisarem vão escorregar – sou esguio por não ter guias – capa de revista – afroreggae e favela rising – entro nas brechas ocupo as frestas – aprendi com a água que acha saídas e quando se junta sabe ser fúria incontrolável – do moleton ao molotov – ceilândia, no df, põe hippies e ripas no hop – a cidade se dá a quem se doa – cidadania só é boa quando conquista – não são as asas que permitem o vôo, mas as atitudes – no baculejo do ganzá – um fole de bandoneon no sul, uma rancheira resfolega no centro-oeste, em cima, funga no cangote os oito baixos nordestinos – concertos sanfônicos – bumba meu boy – entre o mar de lama e o de lamê – o murro nas lamentações – se perderam o boeing da história peçam carona ao reisado guerreiro de mestre benon das alagoas, ele disse: “a terra é que move o movimento” – toadas onde mora o cálix bento e a hostess, ambos consagrados – darcy ribeirinho ainda corre – a casinha de villas bôas é preciosa e precisa, já, urgente, virar o memorial do xingu lá no posto leonardo do prefeito caboti – nos terreiros informatizados santo não baixa mais: tem download – ogum com seus ferros e berros recorre à justiça infinita de xangô pelos veios profundos de nanan aos batismos das águas de oxum, isto sem cair o sinal – e se os “bolinhos de jesus” vencerem o acarajé? – batmacumbayêyê, batman – mais falam em “coisa do demo”, mais demonstram a nova inquisição parabólica de hoje – tia ciata não pode mais acolher os novos batuques perseguidos – castradores em nome do senhor manipulativo – contas, cantos e cores na mira – conseguirão dessa vez caparem a guerrilha capoeira? – como mascarar o golpe até parecer bailado? – mãe biu da nação xambá, linha única tem memorial com o coco bongar fazendo a trilha sonora –
– onde você esconde o seu racismo? – isso incomoda, ruge – racismo range, racismo finge na pior das máscaras, as mais caras: “você não me incomoda porque você sabe qual é o seu lugar” – a mídia come o pastel de vento da opinião produzida – massas falidas – recortagens redundantes do guarani ao guaraná – não ponham corda no meu bloco, quanto mais no meu pescoço – tv eletrodoméstico – tambores digitais – surubas digitais – abaixo a igreja universal do reino do chip – viva o portal libertário – mouse sem mickey – farinha pouca nossa piração primeiro – a tropicália ainda vive em conceito embora tenha dançado como produto – e vocês, sabem com quem estão falindo? – a conspiração da mediocridade é forte, mas não vai nos desdentar – “deus, quando tirou meus dentes, reforçou a gengiva”, diz mestre quadrado no aruê-pã da ilha de itaparica – afffuuuuá é a respiração do boto na ilha de marajó – virou cidade: afuá – que não tem carro e trafega bike mais que amsterdã porém seus moinhos giram sob as palafitas: “menino sai de baixo da rua e entra”, gritam as mães em suas casas de madeira, cada uma com uma fachada – e há muitos brasis acontecendo sem que a mídia dê conta de contar – é giro demais para uma pomba gira só – mestre sabá vive lá no macapá e é zumbi em tempo integral no quilombo do curiaú – são os quadris revolutos que desestruturam qualquer esquadria da velha revolução – se a cidadania virou moda, tomara vire modelo e exploda a medula do sistema – responsabilidade social tem apelo, então socializemos os irresponsáveis –
– malandro que é malandro não cai: trepica e sarta de banda – malandro que abre o bico perde o gás – fala xangai: quequitutemcanário? – fala elomar, suassuna, o barro do manoel: pantanal é chão que mexe de tanto rio por baixo – e os rosas do rosa – ainda e sempre nossa língua afiada feito punhal de lampião – zapeia pra faltar audiência – blogueia pra inventar a teia – fanzina pra desmontar o best-seller do apocalypse – todo poder poda – assuma o mando, desmande o comando – a fim de querer, a fim de fazer – perder o foco geral é como ver futebol na tv: só mostram a jogada com bola e nunca a visão do jogo – daí nossa pátria de chuteiras tender ao estripamento das idéias – vamos por partes, fragmentamos como o frango assado da cultura caderno 2 dominical – sem o conjunto do geral o todo e tédio – tamanduá fuxica até achar, queria oswald contra a anta boquirrota e lerda dos tapuias – tabu e totem – totaliza tanta contradição num país só – tomar todas – com licença, posso vomitar no seu carpete? – a vida pulsa lá fora – no chã de camará, pernambuco, um caboclo está na ponta da lança para virar são jorge e o avesso – em terra de maracatu, maracutaia é troça – feio é morrer de toca, melhor tombar na tocaia – só o mané manera – chega de reconstrução – a onda é revirar a novidade – cilada de vacilão é sempre achar que já sabe tudo – quem tá pronto tá acabado – cagada de phd tem explicação brilhante – o meio ambiente começa no meio da gente – escapamos da cadeia alimentar das feras – caímos no código de barras – marmita de gravata é fast-food – spray: mato tua sede parede – grafita de fato – imprensa cultural virou roteiro de entretenimento comentado: onde tá o fato, nóis fatura – jornal pode até ser produto, mas notícia não pode virar mercadoria –
– em cima daquele morro tem um pé de jk, quando os hômi atiram forte só se ouve ark – eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente no lugar que escolhi – claudinho e buchecha resumiram o projeto do século – minha terra tem motosserra onde antes, sabiá – quem sabe sobra – um inglês assina protesto pela amazônia em fina mesa de mogno – quem cyber cyber, domina bem: informação é poder, deformação é domínio, manipulação é controle – luzinete, marinete, ivonete, rosenete, irmãs cajazeiras do sertão sem acesso à internet: a farsa da informação farta – sem contexto, consciência e sentido – cabocolinhos – aguilar é jedai, ou desce – suas espadas de luz para cortar a mediocridade que nos imprime – lampião caolho, camões semiótico – há servos demais – a cultura tem a ver com roça: você roça, roça, se enrosca, até que dessa fricção científica sai alguma coisa – bertazzo vive o teatro de revista em revista – consciência – “por que uns e não outros?”, foi a tese de doutorado na puc de jailson souza e o início do ceasm centro de estudos e ações solidárias das 16 comunidades da maré 1997 – difícil não é morar onde eu moro, a dificuldade é não permitir que eu acesse outras moradias e lugares – “patrulha tropa de choque traficante tiroteio e a cidade te pergunta: tá com medo, por que veio?”, diz bráulio tavares no folia guanabara, que significa “seio d'água tão grande quanto o mar” – na maré a praça do 18 é dos fortes – ainda bertazzo: “tenho sempre a impressão de que a construção de um espetáculo representa, em mínima escala, um possível sistema de organização: urbana, civil e democrática” – enquanto boal abóia, amir rima e o teatrão fica louco para virar alvo de pombo nas estátuas da glória – saravá sarah vaughan – consonâncias da mesma ressonância: como as inserções em circuitos ideológicos de cildo meirelles ao colar adesivos em garrafas de coca – as lutas de rua voltaram contra o aumento das passagens de ônibus, mas ninguém quer um novo foco – os sem-teto, cobrem – os sem-terra, cavam – os sem-vergonha, vergam – pior que a pm são as mps das medidas provisórias – e pra que banco 24 horas se o nosso salário só dura 24 minutos? – o sol nasceu pra todos, mas o bronzeado é só para quem ganha acima de 40 salários mínimos –
– zé limeira embala nise da silveira que embola arthur bispo e desvenda nossa lucidez domesticada – pânico do descontrole – veja lá se esse povo aí vai ultrapassar os limites? – é a pizza neoliberal do manjericão chupando manga – dandy ou dendê no maracatu de aliança: como a tradição está morta? é um mestre de nove anos, o gabriel, anjo do boi estrela: e tem uns que dizem pra tirar as crianças das ruas – as ruas é que devem ser devolvidas às crianças com beleza, segurança, festa e escola – temos é de tirar as crianças de dentro de casa: lan house desse doce lar com fritas e obesidade precoce – sob o risco de um país em lerdos rebanhos espumantes no ódio passivo dos que repetem “isso não é comigo, isso não é comigo” e “eles que se virem, eles que se danem” – diz o poeta turiba “ou a gente se raoni, ou a gente se sting” – em algum momento do dia quem está no volante vira pedestre e aí... –
– não aceitem o brasil por tabela – o brasil traduzido – o brasil vai pegar no tranco se a gente pegar na veia – há um brasil acontecendo à revelia – não tem nada nada nada que traduza essa enorme maravilha caótica em permanente processo de ebulição transmutação rebelião e desestabilização – não espere que alguém venha lhe mostrar o que é para ser visto – abra seus olhos por conta e risco – lugar quente é na cama ou então no bola preta, pois quem não chora: miami – se você acha que a realidade está no que ouve lê ou vê pela mídia, escape dessa necrofilia – a mídia ela se arrasta atrás do fato, depois de acontecido – com formol lhe dá formato editado filtrado para adotar cara de notícia – como lembrou caymmi para evitar trio elétrico, “eu não sou cachorro bobo pra correr atrás de caminhão” – direitos humanos, ótimo – também direitos mundanos – arte aliada da mudança – direitos mundanos aplicados na correria da hora: o poder do comum – pessoa sim, peça não – quem tem de ser especial é você e não o seu cheque – veja como tem medalhão babando pela perda da teta no balcão dos negócios consagrados – cala que as coisas falam – o outro pode ser eu pelo avesso – se eu converso, eu convexo – o outro sou eu quando verso – versão do que ainda não me tornei – aversão do que ainda poderei ser – se é pra ficar sentado, na espera, então pra que estar vivo? – se não tem, inventa – se está sem, tenta – entramos em trabalho de parto e a teia já avança sobre os silêncios que se recusam a perceber – tua cultura é tua – ataca, atraca, atua – acontecer – se a gente quiser, se a gente fizer – quem tá pronto tá acabado... –
(MAIS OU MENOS MANIFESTO)
reprodução da obra de TT Catalão
eis um breve testemunho-testamento caótico, quase manifesto, nervoso e sujo pela poeira dos terreiros, em colagem de ouvidos, pára-choques de caminhantes, grafitagens, fragmentos de ruídos, recolhidos em diversos pontos de cultura de todas as regiões do brasil, frases desconexas em busca da argamassa rede, fios ainda em construção da grande teia, grávidos para devolver o caos sensível da nossa mucosa identidade nunca resolvida e eterna, do tanto que somos belicosamente em processo mutante, assim tudo foi escrito num só jorro, esquizo porém concreto, desse conflito em confronto estilhaçado da arte sem enfarte, fora do mercado, porém viva, no ano da graça de 2006 por este simples peregrino de acasos –
– queiram ou não entramos em trabalho de parto – os rebentos ainda não se pronunciaram em fetos novos – mídia só percebe o espetáculo quando ele vira produto, não alcança o processo – é difícil ver as tramas da rede – mas que las hay, hay – nós desatamos os nós – compartilhamos a tentativa nova: somos os verdadeiros autores das autoridades – existir é resistir – estamos em gestação progressiva – vamos do jeito que vamos porque viemos sempre assim: aos trancos, aos arrancos, entre o barroco, barracos e barrancos – a vida sempre revida – em colapso de exclusão responder, abusados: acontecer pela arte quando nos querem à parte – acontecer na presença quando nos querem invisíveis – acontecer teias de trocas – aí é que dizemos sim – esta é a nova ameaça: ao não aceitar a canga, escangalhar – dobrar os joelhos só se for para saltar mais alto – estamos íntegros e integrais – a plenitude é a soma das nossas imperfeições – bem diz um grafite de rua lá no recife: “expresso com o que tenho”, expresso com o que tenho – quando digo sim, eu posso, digo sei, eu faço, aí eu sou – viro o perigo na boca da meta, se encostar é pênalti, se avançamos é gol – viemos para misturar as fontes – direto na boca do gargalo – coca-cola também é família mas anda nas bocas de todo mundo – sem intermediários – a pet entope o esgoto – perigosos pela doçura da mestiçagem – engolir para melhor assimilar e arrebentar por dentro até que só reste traços e vestígios da pegada colonial – “se forem em política o que são em estética, estamos mortos”, ainda vibra aquele caetano de 68 – curto cicuta – o poeta desfolha a bandeira ainda trina gil e torquato – a geléia geral desidratada, pó em conserva – os jorros parecem interrompidos – saques ficaram mensalão – das sacadas não mais carolinas e bandas só passam se tiver megaconcerto – nunca tanto “ao vivo” nasceu morto – se o brasil acabasse assim vai ficar difícil selecionar os melhores momentos – porém o subterrâneo insiste – o que salva o oficial é o paralelo sem paralelo – as referências transmutam – a tradição só vale enquanto extradição, porém ao entrar na roda e gira – magnífico como o povo brasileiro decidiu não ser exterminado por tanta explicação – em constante movimento – já tivemos o pixinguinha jazz dos oito batutas – hoje, xote soa reggae – pulse trance trota feito o cavalo-marinho de mestre grimaldi, lá da zona da mata pernambucana – do repente ao rap, eis que de repente não mais que de repente tua cultura atua, ata, ataca, atraca, atua por ser tua – cada nódulo da teia se encadeia e desfia os elos da corrente eletrizante – acupun-cultura – aquele velho do-in antropofágico – nó sem ser o câncer do overdrive – talvez por isso língua não tenha osso – para gozar melhor entre as frestas – por isso estamos vivos – cidade feito cilada de armadas ilhas: armadilhas nas ruínas contemporâneas – vale mais a citação varonil do terno de sopros do maracatu aliança ao encaixar a trilha de popeye em pleno berço da pureza de terreiro – povo que tem talo não quer tutela nem travela – utopias abortadas fiquem para o porre cerebral – o erudito pelo não dito – chororô das tramas fracassadas: quem ama não drama – vamos ver se dessa vez a cultura escapa do eterno retorno: condenados sempre a partir do zero – qual é a novidade no balaio dos entendidos? –
– celebrar a diversidade, já fizemos – considerar a mestiçagem, já provocamos – proclamar a pluralidade, já shoppingcentramos – então o quekié o “muderno” nesse salve-se quem subir? – qualé o pagode da arte quando a cultura vira processo vivo e o artista deixa de ser bibelô da máquina para cair de boca na vida? – o popular continua mimético no imaginário da culpa da casa-grande que avilta a carne e depois quer o regalo da trepada barata pela estética – o povo ainda é fetiche para quem almoça e janta e não perde uma balada digestiva: o filho do patrão finge ser da tribo para evitar o choque – não foi de bobeira que os operários franceses, no mitológico rebuceteio do maio de 1968, alertaram aos estudantes excitados: “zona aqui na fábrica, não – aqui é nosso ganha-pão e vocês um dia voltam diplomados como novos opressores” – deu no que deu – a apropriação do popular alimenta a diluição ou mapeia nossos abismos para retomarmos o elo perdido desta pindorama estuprada por um pau-brasil de dimensões continentais? – o que muita gente detesta saber é que o povo está em movimento – aquela do Gil: “o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe” – no recife, em pleno seminário toques e trocas do afonso oliveira, surgiu essa: “antes era o bravo mcp (movimento de cultura popular) ligado nas ligas camponesas enquanto um cpc (centro popular de cultura), mais paulista e carioca, rolava entre o morro e o asfalto. Agora o papo é outro, vivemos tempos da própria cultura popular no comando da ação: tempo da cpm, a cultura popular em movimento – será que a elite, não satisfeita em tomar o corpo do povo, sua carne, a seiva de vida, agora quer a alma, a energia desse povo manifesta na arte? – luiz, respeita januário! – respeito é bom e dá gosto – dor não é deleite para elite – como bem disse o ferréz: “carentes são vocês que não param de querer e querem controlar e tomar tudo” – exercer o compartilhar para tirar a última laranja da pilha: o resto despenca – o que é ruim vai cair por si, mas cada um pode acelerar o processo – cada um com seu cada um não chegaremos a lugar nenhum, daí a urgência das redes – tua cultura é tua, tua cultura atua – fita do bonfim magnética em breve nessa nanocracia de pigmeus – melhor dribla quem desenquadra os quadris: eis o mistério do rock para os anglo-saxões, rebolar – precisavam remexer para alterar a rigidez das vértebras e deixar fluir esse kundalini – pélvis elvis não veio de graça – mas somos phd em deslocamentos da cintura há séculos – gloriosa bunda que beija e balança esse lábaro estrelado das terras emergentes – bota um cd-rom no batoque do raoni, o legítimo – descentraliza a lei rouanet, o legal – deus e o diabo na terra do soul, da sé e do senna – tem sempre um muro na frente de um brasileiro aguerrido – querem nos parar na marra – mas aprendemos a saltar pulando amarelinha nos quintais parabólicos –
– são paulo não pode parar por absoluta falta de estacionamento, então gira, gira, bate, combate e acaba dando creme nesse leite coalhado – a vaca não vai mais pro brejo porque há uma churrascaria no meio do caminho – mas o brejo pode virar a roça nova nem que seja country minado – ou campo – ou é tudo ao mesmo tempo agora, de novo – é preciso parar com essa de “resgatar a cultura popular” – quem precisa de resgate são os perdidos na fúria das novidades para consumo – o povo é o ovo do povo – criação permanente, em movimento, se não decifram são devorados – daí essa generosa avidez por carne nova no pedaço – o sertão já virou marketing – glauber ao encontrar guimarães rosa em 1965 projeta seu riverão “prometeu domesticou o abutre que bicava seus fígado para dar o fogo ao humano” – lina bo bardi saiu da linha para revelar o que tava na cara de todo mundo e ninguém via: “poesia é isca”, disse a bruxa do desenho brasileiro – via antes de enxergar – lina fundou o ardil da ele-gância bruta – sacou na medula – até hoje as acade-mias anêmicas ainda correm atrás do prejuízo – ranço da pança tóxica: fast-food intelectual na farsa da informação farta – poesia é isca: rime como quem comete crime – quem samba ginga quem não samba dá o fora – miami ou deixe-nos – ouvido no vidigal: “morto eu já tô só falta quem faça o serviço” – reacender a lampadarina de aloísio magalhães: fifó da general eletric quando o bulbo queimado da indústria reacende com pavio e querosene jacaré – lágrimas de mi cocodrilo verde – aloísio magalhães, morre em 1982, veneza, quando defendia na unesco olinda patrimônio – desenhava dinheiro e morreu sem – latinidades obsoletas – arriba pancho vila isabel que botou bolívar no sambódromo – che nunca viu passeata tão gostosa – o carnaval é a greve geral mais eufórica do mundo – os caminhos do centro nacional de referência cultural de aloísio foram dicas contra o novo jeito malandro do colonizador: escapar do tal multiculturalismo europeu – reconhece, até respeita, mas não admite a santa promiscuidade dos mestiços – mantenham distância – não entrem na sala nem venham vomitar o nosso carpete – viciados em ácaros os burocratas do poder têm horror ao suor – e o povo sua, e o povo soa, e o povo não é seu ou de quem quer que se suponha messias – deus é grátis, mas guru cobra ingresso – o tesão das realidades adora desmontar teses – omissão ainda é o pior míssil –– rodrigo de mello franco continua mais raiz que a mandioca do xinguano aritana – os yawalapíti contra a tribo dos “carapecus”: uma gente que não entra no rio e só lava a cara, o pé e o que falta para ser lavado – o xingu sabe que está cercado mas vai usar a teia para romper o cerco – na emergência da memória – também imaterial – ressignificar o que ficou para continuar sendo – pelo último grão que resta semear outra floresta – eles venceram, mas enquanto sobrar um dos derrotados eles terão que engolir ou cuspir – a inocência desestabiliza – nos organizar para desorganizar – a pureza é a soma de tudo e mais um pouco ainda – se lucio e oscar fizeram o primeiro poema concreto das contradições brasileiras – é possível ressignificar as muitas brasílias resistentes na brasília mais de casca – as aparências esganam – uma catedral cocar ou coroa de abacaxi – entre os vãos e vens da pampulha – os vaivéns dos pulhas – o trançado da teia entrelaça não para prender mas para fortalecer o um com mais um – enquanto duas torres gemem no congresso – enquanto a esplanada dos ministérios é uma placa mãe de slots à espera dos nossos inputs – brasília pode ser a utopia abortada, mas que feto! – quanto mais interior mais exterior: litoral recebia e girava no seu umbigo capital – agora o sertão processa e devolve por cima: as ondas estão no ar – navegar é o mesmo verbo pro ar e o mar – em brasília tem o mamulengo presepada com os mambembrincantes de rua: esquina é onde a gente funda – tatuagem de carne no asfalto – se a gente diz: a cidade é nossa, a gente toma – a primeira lei do guerrilheiro é não cair no despertar – e aí vai sem cair na tarde, e menos ainda na noite – até a outra manhã – e aí novo despertar, sem cair, vai e vai e vai – artimanhas de sobreviver sem os tubos – qualidade de vida vale mais – e não se trata de folclorizar a precariedade – mas superar a sucata – o digital vai além dos dedos e muito mais além dos dados – o dna do dono é o controle – quando mais e mais gente decide sair do cerco o circo pode pegar fogo – dono do corpo, faço meu sustento – dono do acesso, processo a informação – no meu direito ao desejo e realização do prazer faço os rumos do caminho – donos da festa – opinião – manifestar do nosso jeito – se tenho ferramentas crio e creio do modo que entendo – só troca quem tem – senão é doutrina – canais próprios – conexões solidárias – pulga que pluga – salta de ponto em ponto e interliga – o que é que você quer ser quando crescer? – o que é que você deixou de ser quando cresceu? – por que tanta gente não quer que você cresça? – a novidade agora, além da diversidade, da pluralidade, é que quem faz está na ponta da lança, recebe os equipamentos, processa a sua visão da coisa, emite não se omite, não apenas recebe e repete, atua, tua cultura atua – de mala e cuia entre e-mail e caos – cacos são pontos que unidos desenham linhas pra fazer mosaicos – sair da platéia e ativar – sair da fila do gargarejo e agitar – levanta e manda – essa é a diferença – o estado com política pública para entregar as armas aos cidadãos – uma convocação marselhesa de arte e prazer – agora é a co-inspiração já que as conspirações se esgotaram no corriqueiro – cordialidade das raízes do brasil, no sentido do córdio – mais coração que cordato –
– suely carvalho é ponta-de-lança em olinda – mãe matriz de todas as parteiras: cais do parto, seu ponto motriz – ela ensina os homens a parir – beth de oxum tem um coco para 20 vozes infantis – é a umbigadinha que ilumina os becos periféricos com o ardor da verdade libertária – não choram pelos cantos: cantam – gueto eu não te agüento – esse brasil faz e acontece enquanto tece a teia – lula gonzaga faz animação com xilo em igarassu pernambuco e diz: volpi contar – no vidigal subiu uma sala de edição entre o mar e a favela – visão da beleza e do caos, literalmente magnífica – assim mergulhamos nas contradições para sairmos do impasse – se mazzaropi dá hip-hop, matarazzo tira o atraso? – da lama ao caos só sairemos dessa se entrarmos mais fundo nessa – da science do chico ainda o suingue – a cabeça do outro, chico, o buarque, os panfletos elegantes – na favela da maré, de complexo mesmo só o da superioridade: a superação – não deixo eles me botarem pra baixo: se me pisarem vão escorregar – sou esguio por não ter guias – capa de revista – afroreggae e favela rising – entro nas brechas ocupo as frestas – aprendi com a água que acha saídas e quando se junta sabe ser fúria incontrolável – do moleton ao molotov – ceilândia, no df, põe hippies e ripas no hop – a cidade se dá a quem se doa – cidadania só é boa quando conquista – não são as asas que permitem o vôo, mas as atitudes – no baculejo do ganzá – um fole de bandoneon no sul, uma rancheira resfolega no centro-oeste, em cima, funga no cangote os oito baixos nordestinos – concertos sanfônicos – bumba meu boy – entre o mar de lama e o de lamê – o murro nas lamentações – se perderam o boeing da história peçam carona ao reisado guerreiro de mestre benon das alagoas, ele disse: “a terra é que move o movimento” – toadas onde mora o cálix bento e a hostess, ambos consagrados – darcy ribeirinho ainda corre – a casinha de villas bôas é preciosa e precisa, já, urgente, virar o memorial do xingu lá no posto leonardo do prefeito caboti – nos terreiros informatizados santo não baixa mais: tem download – ogum com seus ferros e berros recorre à justiça infinita de xangô pelos veios profundos de nanan aos batismos das águas de oxum, isto sem cair o sinal – e se os “bolinhos de jesus” vencerem o acarajé? – batmacumbayêyê, batman – mais falam em “coisa do demo”, mais demonstram a nova inquisição parabólica de hoje – tia ciata não pode mais acolher os novos batuques perseguidos – castradores em nome do senhor manipulativo – contas, cantos e cores na mira – conseguirão dessa vez caparem a guerrilha capoeira? – como mascarar o golpe até parecer bailado? – mãe biu da nação xambá, linha única tem memorial com o coco bongar fazendo a trilha sonora –
– onde você esconde o seu racismo? – isso incomoda, ruge – racismo range, racismo finge na pior das máscaras, as mais caras: “você não me incomoda porque você sabe qual é o seu lugar” – a mídia come o pastel de vento da opinião produzida – massas falidas – recortagens redundantes do guarani ao guaraná – não ponham corda no meu bloco, quanto mais no meu pescoço – tv eletrodoméstico – tambores digitais – surubas digitais – abaixo a igreja universal do reino do chip – viva o portal libertário – mouse sem mickey – farinha pouca nossa piração primeiro – a tropicália ainda vive em conceito embora tenha dançado como produto – e vocês, sabem com quem estão falindo? – a conspiração da mediocridade é forte, mas não vai nos desdentar – “deus, quando tirou meus dentes, reforçou a gengiva”, diz mestre quadrado no aruê-pã da ilha de itaparica – afffuuuuá é a respiração do boto na ilha de marajó – virou cidade: afuá – que não tem carro e trafega bike mais que amsterdã porém seus moinhos giram sob as palafitas: “menino sai de baixo da rua e entra”, gritam as mães em suas casas de madeira, cada uma com uma fachada – e há muitos brasis acontecendo sem que a mídia dê conta de contar – é giro demais para uma pomba gira só – mestre sabá vive lá no macapá e é zumbi em tempo integral no quilombo do curiaú – são os quadris revolutos que desestruturam qualquer esquadria da velha revolução – se a cidadania virou moda, tomara vire modelo e exploda a medula do sistema – responsabilidade social tem apelo, então socializemos os irresponsáveis –
– malandro que é malandro não cai: trepica e sarta de banda – malandro que abre o bico perde o gás – fala xangai: quequitutemcanário? – fala elomar, suassuna, o barro do manoel: pantanal é chão que mexe de tanto rio por baixo – e os rosas do rosa – ainda e sempre nossa língua afiada feito punhal de lampião – zapeia pra faltar audiência – blogueia pra inventar a teia – fanzina pra desmontar o best-seller do apocalypse – todo poder poda – assuma o mando, desmande o comando – a fim de querer, a fim de fazer – perder o foco geral é como ver futebol na tv: só mostram a jogada com bola e nunca a visão do jogo – daí nossa pátria de chuteiras tender ao estripamento das idéias – vamos por partes, fragmentamos como o frango assado da cultura caderno 2 dominical – sem o conjunto do geral o todo e tédio – tamanduá fuxica até achar, queria oswald contra a anta boquirrota e lerda dos tapuias – tabu e totem – totaliza tanta contradição num país só – tomar todas – com licença, posso vomitar no seu carpete? – a vida pulsa lá fora – no chã de camará, pernambuco, um caboclo está na ponta da lança para virar são jorge e o avesso – em terra de maracatu, maracutaia é troça – feio é morrer de toca, melhor tombar na tocaia – só o mané manera – chega de reconstrução – a onda é revirar a novidade – cilada de vacilão é sempre achar que já sabe tudo – quem tá pronto tá acabado – cagada de phd tem explicação brilhante – o meio ambiente começa no meio da gente – escapamos da cadeia alimentar das feras – caímos no código de barras – marmita de gravata é fast-food – spray: mato tua sede parede – grafita de fato – imprensa cultural virou roteiro de entretenimento comentado: onde tá o fato, nóis fatura – jornal pode até ser produto, mas notícia não pode virar mercadoria –
– em cima daquele morro tem um pé de jk, quando os hômi atiram forte só se ouve ark – eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente no lugar que escolhi – claudinho e buchecha resumiram o projeto do século – minha terra tem motosserra onde antes, sabiá – quem sabe sobra – um inglês assina protesto pela amazônia em fina mesa de mogno – quem cyber cyber, domina bem: informação é poder, deformação é domínio, manipulação é controle – luzinete, marinete, ivonete, rosenete, irmãs cajazeiras do sertão sem acesso à internet: a farsa da informação farta – sem contexto, consciência e sentido – cabocolinhos – aguilar é jedai, ou desce – suas espadas de luz para cortar a mediocridade que nos imprime – lampião caolho, camões semiótico – há servos demais – a cultura tem a ver com roça: você roça, roça, se enrosca, até que dessa fricção científica sai alguma coisa – bertazzo vive o teatro de revista em revista – consciência – “por que uns e não outros?”, foi a tese de doutorado na puc de jailson souza e o início do ceasm centro de estudos e ações solidárias das 16 comunidades da maré 1997 – difícil não é morar onde eu moro, a dificuldade é não permitir que eu acesse outras moradias e lugares – “patrulha tropa de choque traficante tiroteio e a cidade te pergunta: tá com medo, por que veio?”, diz bráulio tavares no folia guanabara, que significa “seio d'água tão grande quanto o mar” – na maré a praça do 18 é dos fortes – ainda bertazzo: “tenho sempre a impressão de que a construção de um espetáculo representa, em mínima escala, um possível sistema de organização: urbana, civil e democrática” – enquanto boal abóia, amir rima e o teatrão fica louco para virar alvo de pombo nas estátuas da glória – saravá sarah vaughan – consonâncias da mesma ressonância: como as inserções em circuitos ideológicos de cildo meirelles ao colar adesivos em garrafas de coca – as lutas de rua voltaram contra o aumento das passagens de ônibus, mas ninguém quer um novo foco – os sem-teto, cobrem – os sem-terra, cavam – os sem-vergonha, vergam – pior que a pm são as mps das medidas provisórias – e pra que banco 24 horas se o nosso salário só dura 24 minutos? – o sol nasceu pra todos, mas o bronzeado é só para quem ganha acima de 40 salários mínimos –
– zé limeira embala nise da silveira que embola arthur bispo e desvenda nossa lucidez domesticada – pânico do descontrole – veja lá se esse povo aí vai ultrapassar os limites? – é a pizza neoliberal do manjericão chupando manga – dandy ou dendê no maracatu de aliança: como a tradição está morta? é um mestre de nove anos, o gabriel, anjo do boi estrela: e tem uns que dizem pra tirar as crianças das ruas – as ruas é que devem ser devolvidas às crianças com beleza, segurança, festa e escola – temos é de tirar as crianças de dentro de casa: lan house desse doce lar com fritas e obesidade precoce – sob o risco de um país em lerdos rebanhos espumantes no ódio passivo dos que repetem “isso não é comigo, isso não é comigo” e “eles que se virem, eles que se danem” – diz o poeta turiba “ou a gente se raoni, ou a gente se sting” – em algum momento do dia quem está no volante vira pedestre e aí... –
– não aceitem o brasil por tabela – o brasil traduzido – o brasil vai pegar no tranco se a gente pegar na veia – há um brasil acontecendo à revelia – não tem nada nada nada que traduza essa enorme maravilha caótica em permanente processo de ebulição transmutação rebelião e desestabilização – não espere que alguém venha lhe mostrar o que é para ser visto – abra seus olhos por conta e risco – lugar quente é na cama ou então no bola preta, pois quem não chora: miami – se você acha que a realidade está no que ouve lê ou vê pela mídia, escape dessa necrofilia – a mídia ela se arrasta atrás do fato, depois de acontecido – com formol lhe dá formato editado filtrado para adotar cara de notícia – como lembrou caymmi para evitar trio elétrico, “eu não sou cachorro bobo pra correr atrás de caminhão” – direitos humanos, ótimo – também direitos mundanos – arte aliada da mudança – direitos mundanos aplicados na correria da hora: o poder do comum – pessoa sim, peça não – quem tem de ser especial é você e não o seu cheque – veja como tem medalhão babando pela perda da teta no balcão dos negócios consagrados – cala que as coisas falam – o outro pode ser eu pelo avesso – se eu converso, eu convexo – o outro sou eu quando verso – versão do que ainda não me tornei – aversão do que ainda poderei ser – se é pra ficar sentado, na espera, então pra que estar vivo? – se não tem, inventa – se está sem, tenta – entramos em trabalho de parto e a teia já avança sobre os silêncios que se recusam a perceber – tua cultura é tua – ataca, atraca, atua – acontecer – se a gente quiser, se a gente fizer – quem tá pronto tá acabado... –
Este "quase manifesto" é um trecho extraído da obra-colagem em vídeo, power-point e animação "Cultura quem te atura?" de TT Catalão, consultor do PNUD, com mais de 1.500 imagens reunidas como um mosaico da cultura em movimento. São fotos do autor por diversos Pontos de Cultura, recortes de jornais brasileiros e europeus, reproduções de catálogos, cartazes, paredes e muros sob montagem de sons incidentais rurais, urbanos e alguns não muito bem definidos.


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